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segunda-feira, abril 15, 2024

O pouso de Simplício no Getsêmani

É já que a trupe de fariseus me acusa de blasfêmia. Calma! Getsêmani – os leitores da Bíblia devem saber – refere-se ao lugar (Monte das Oliveiras) da intensa agonia de Cristo, minutos antes da traição e prisão. Diz o livro sagrado do Cristianismo, que ali, na solidão do Getsêmani, o diabo fez duras investidas a fim de castrar qualquer possibilidade de salvação para a humanidade, que só viria via cruz do calvário. Enquanto Cristo suava sangue, os discípulos, a quem incumbiu de vigiar e orar, tiravam uma soneca na hora mais inapropriada.

Simplício, que há tempos povoa o cenário político da região do Médio Mearim, com ênfase em Pedreiras, não tem vocação para Messias, ainda que nos últimos tempos tenha convertido certas promessas não cumpridas em outras, cumpridas. Com o parque fez o povo esquecer a ponte. É a face de Flávio Dino em Pedreiras.

A vida pessoal dos políticos não me interessa (exceto quando há fatos de interesse público). Procuro observa-los investidos do cargo, encantados com uma autoridade que dizem ter. A política de Simplício não me encanta. Não suscita-me aquele tesão por política, ainda que sua retórica seja bastante contundente. É um dos nomes por trás de um desenvolvimento tido como letal à comunidades tradicionais, que há décadas estão estabelecidas em seus territórios. Simplício é um dos nomes do governo Dino, em uma gestão “comunista” acusada de inércia. Foi o que ouvi, por exemplo, nas comunidades Tanque de Rodagem e São João, em Matões, sob pressão do agronegócio, cujo documentário produzo.

Na pandemia, sustentou a imagem de protagonista, rodeado por figuras da política local de diferentes matizes políticos. Tornou-se de vez “herói” quando trouxe o Hospital de Campanha Dr. Kleber Carvalho Branco. Um dos muitos que teria viabilizado no Maranhão em diálogo com o setor privado. A importância destes no combate à pandemia não pode ser negada. Vidas foram salvas em regiões que a mão do governo do estado, até então, não abarcava. Nesse contexto, ele já projetava sua imagem a ponto de ser visto como o melhor nome para ocupar a cadeira que será deixada por Flávio Dino.

Na campanha de 2020, foi peça importante na eleição da agora prefeita Vanessa Maia. Abrigou-lhe no Solidariedade, andou com ela na Avenida Rio Branco, anunciou obra em plena campanha e dividiu palanque com um de seus desafetos históricos, Fred Maia. Depois da ressaca da vitória, dizem fontes, Simplício teria sido fundamental na costura de uma coalisão pró-Vanessa Maia na Câmara de Vereadores. Como se percebe na prática, até aqui, a gestora governa sem incômodos do legislativo.

Na disputa pela disputa ao governo do estado, Brandão, o vice, é dado como certo. Por um tempo a turba de apoiadores locais do secretário se empolgou com #SimplicoMeuGovernador. Divulgavam pesquisas e mais pesquisas… Era Simplício pra cá. Simplício pra lá. Numa militância personalista. “No meio do caminho tinha uma pedra”, profetizou Carlos Drummond de Andrade.

Fred, na rota pelo poder, sabe que política não é uma conversa de amigos numa praça. Soube se servir do apoio de Vinícius Louro, tirar proveito e quando lhe conviera, soube fazer dele um rival facilmente abatido, diga-se de passagem. Soube se servir de Simplício, com acesso privilegiado ao governo do estado e sem cerimônias, às vésperas da visita do governador à Trizidela do Vale, fez sua escolha por apoiar Weverton Rocha. O que era um mar de calmaria agitou-se e, segundo fontes, a ruptura se fez definitiva durante prosa nada amistosa à portas fechadas. Eis a pedra no caminho dos que se beneficiam com a junção, mas à medida que 2022 se aproxima os muros vão caindo por terra.

Alguns, inclusive do 1° escalão, já trocaram de “meu governador”. Natural! A política que sedimentam nada tem a ver com a coletividade. Nunca foram coletividade. Política para esses é projeto de poder, de distorção da coisa pública, que em grande medida, preserva o estado de desigualdades que abate nosso povo. Nessa sina de democracia representativa, outorgamos, a esses, o destino de nossas vidas, esperando que movam as pedras em nossos caminhos.

Em seu Getsêmani, Simplício experimenta a solidão. Seu palanque vai ficando mais espaçoso quando parte daqueles que lhe abraçavam, como diz uma cantoria, “pulam para o lado de lá”. Ele alimenta a “política” que o devora. De grande líder a nome esquecido nos agradecimentos de gente, que até pouco tempo, o cultuava como um Deus. Fred Maia, que nesta terça-feira (09), tratou de tornar público a data de inauguração do Hospital Macrorregional de Pedreiras, teve o zelo de não citá-lo. Jotinha Oliveira, na tribuna da câmara, disse que a obra não tem um pai e sim uma mãe: Vanessa Maia.

Que peso a gestora teve nessa obra de anos? Com quem dialogou a ponto de ser figura relevante par sua conclusão? Que protagonismo teve?

No final do ano passado publicamos aqui uma reportagem detalhada sobre o Macrorregional e sua demora. Simplício se apressou em questioná-la e deslegitimar quem a escreveu. O jornalismo que prego é o da racionalidade e ela desemboca na seguinte indagação: teria Fred Maia mais influência para a conclusão de uma obra estadual que um secretário de estado? Quantas visitas ele fez à obra, além de uma ao lado do secretário? Quantas queixas fez diante de sucessivos adiamentos?

No fetiche pelo poder vale tudo pelo caminho. Nada mais popular que pegar carona.

Nesses joguetes percebe-se, com nitidez, o quanto a política que temos é desonesta e não há, na paisagem, sinal de que isso mude, nem a longo prazo. Parte da imprensa, bipolar, reforça essa realidade. Simplício, Fred, Vinícius, Vanessa, são parte dessa estrutura política em constante mutação, feita para não durar. Projeto de poder e não de sociedade com pleno exercício da cidadania.

Diz a Bíblia que antes da solidão do Getsêmani, Jesus vivenciou cenas de triunfo ao entrar em Jerusalém. Foi chamado de rei em sua passagem entre os ramos de oliveira. Saudado por aqueles que exigiriam sua condenação dias depois. Longe da santidade, no átrio da política, Simplício experimenta realidade semelhante na liquidez da politicagem e nada mais condenatório, a quem gosta de holofotes, que a escuridão.

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Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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