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terça-feira, março 24, 2026

O espaço carnavalesco e a sátira da “família em conserva”: representações culturais e conservadorismo

Coluna do Barrinha


Passado o momento inicial de maior tensão e polarização, é importante refletirmos sobre a temática que, nos últimos dias, mobilizou um debate público nacional e evidenciou posicionamentos antagônicos e distorcidos no país. Refiro-me aos desdobramentos do desfile da Escola de Samba Acadêmicos de Niterói, realizado no último dia 15 de fevereiro, cuja concepção artística e discursiva suscitou reações divergentes em distintos segmentos sociais. O desfile da agremiação homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com um enredo político que gerou grande repercussão e polêmicas. O enredo, intitulado “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, revisitou a trajetória de Lula desde a infância em Garanhuns (PE), passando pela vida de operário no ABC Paulista, até sua ascensão à presidência e retorno após a prisão.

Ao menos duas controvérsias adquiriram maior visibilidade pública, impulsionadas tanto pela ampla repercussão na imprensa quanto pela circulação intensificada do debate em múltiplos espaços de sociabilidade — comunidades, igrejas, associações civis, redes sociais e mesmo nos ambientes informais do cotidiano. A primeira das polêmicas diz respeito ao aspecto político. A escola de samba estava ou não fazendo campanha política antecipada para o atual presidente do país e candidato à reeleição? A segunda e mais polêmica refere-se a uma das Alas da agremiação intitulada “Neoconservadores e conserva”. Afinal, a escola de samba tencionou valores morais, religiosos e debochou da família brasileira? Verdade, seja dita, a agremiação deslocou para o espaço carnavalesco um debate que extrapola a avenida ao incorporar elementos satíricos associados à representação da família. Aqui cabe um outro questionamento: A família brasileira é conservadora? O fato é que para além do acontecimento festivo, comprovou-se mais uma vez, como o carnaval permanece como arena de produção simbólica, capaz de catalisar disputas culturais e evidenciar fragilidades ideológicas que atravessam a sociedade contemporânea.

Dito isto, vamos aos fatos. Foi campanha antecipada? Não, não foi, é o que afirmam vários especialistas em Direito Público e de Crimes Eleitorais. Senão vejamos o que diz a lei das eleições (Lei nº 9.504 de 30/09/1997), no Art. 36-A Não configuram propaganda eleitoral antecipada, desde que não envolvam pedido explícito de voto, a menção à pretensa candidatura, a exaltação das qualidades pessoais dos pré-candidatos e os seguintes atos, que poderão ter cobertura dos meios de comunicação social, inclusive via Internet. A redação mais recente da Resolução Nº 23.457, de 2015 da Justiça Eleitoral diz que em ano de eleição, exaltar qualidades dos pré-candidatos sem pedido explícito de voto não configura propaganda antecipada.

Antes mesmo do desfile ocorrer, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indeferiu a solicitação dos partidos Novo e Missão (ex-MBL) que pediam a proibição de trechos do samba-enredo que fazem referência a jingles de campanhas do Partido dos Trabalhadores (PT), a participação do presidente Lula e ao compartilhamento de imagens do desfile. Pediam, portanto o impedimento da realização do desfile da Acadêmicos de Niterói. O colegiado fundamentou sua decisão no princípio da vedação à censura prévia, destacando que eventuais questionamentos jurídicos ou irregularidades devem ser examinados em momento posterior, à luz do devido processo legal. Embora o samba-enredo não contenha referências explícitas ao pleito eleitoral, sua composição recorre a elementos satíricos que dialogam, de maneira indireta, com o cenário político nacional. Expressões como “Sem mitos falsos, sem anistia” foram interpretadas como alusão crítica a Jair Bolsonaro, atualmente cumprindo pena de 27 anos e 3 meses por liderar uma organização criminosa que tentou dar um golpe de Estado.

E quanto à família brasileira? A escola se utilizou de deboche para representa-la? Os desdobramentos dessa problemática ganharam maior notoriedade principalmente por parte daqueles defensores do conservadorismo cristão. Então vamos lá. Não, não houve ataques à família ou ao cristianismo, o que houve foi uma crítica social, uma satirização daquilo que é visto e vendido como perfeito. Além disso, a fantasia da família enlatada não dizia que a família era ruim ou não. Havia sim um questionamento ao marketing da família perfeita. A foto perfeitinha e ensaiada com o pai, mãe e filhos, muitas vezes esconde violência emocional e até física. Tem misoginia, silêncio forçado e julgamento constante.

Os religiosos – os que mais reagiram – correram para as redes e começaram a postar suas fotos com a família em conserva, utilizando inteligência artificial (IA). Ao invés de estarem defendendo os valores morais, eles acabaram por confirmar a crítica apontada pela agremiação. A família é vinculo, responsabilidade e respeito especialmente com as mulheres que muitas vezes em nome de discursos religiosos, se tornam submissas aos seus cônjuges, ignorando a sua própria dignidade. Problematizar tais comportamentos, evidentemente, produz desconforto, pois implica tensionar estruturas simbólicas profundamente enraizadas por gerações.

A metáfora da “conserva” sugeriu a tentativa de se tentar prolongar artificialmente a aparência de algo cujo vigor original já acabou. Nesse sentido, repito, a crítica não incide sobre a instituição familiar em si, mas sobre a manutenção de uma performance e de um modelo impecável, sustentado por formalismos e aparências. O que efetivamente sustenta uma família não são encenações públicas ou posturas ritualizadas, mas princípios éticos, coerência moral e respeito mútuo.

A escola foi muito bem-sucedida, corajosa e ousada na sua escolha simbólica de representações, pois o seu desfile ocorreu justamente no momento em que o governo brasileiro cobra dos homens mais respeitos às meninas e mulheres. Foi lançada uma campanha nacional denominada Pacto Nacional Contra o Feminicídio, com medidas de enfrentamento contra o machismo estrutural e pela garantia da vida de meninas e mulheres. Dados do Observatório da Mulher contra a Violência do Senado indicam que, no Brasil, em média, quatro mulheres são vítimas de feminicídio por dia, com registros anuais que, entre 2020 e 2024, oscilaram entre 1.355 e 1.459 casos. A taxa nacional de 1,34 feminicídio por 100 mil mulheres revela que a violência de gênero atravessa o território de forma estrutural, com maior incidência proporcional nas regiões Centro-Oeste e Norte.

Esses indicadores expõem uma realidade que contrasta com idealizações moralizantes da vida doméstica. Não existe “família enlatada” — perfeita, homogênea e imune a conflitos. O que há, muitas vezes, são estruturas marcadas por desigualdades e silenciamentos que, sob o discurso da preservação de valores, podem ocultar violências. Reconhecer essa complexidade é condição indispensável para que a família seja pensada não como embalagem simbólica de perfeição, mas como espaço ético de cuidado, dignidade e justiça.

E o conservadorismo existe mesmo no Brasil? Sim, sua origem é histórica, muito embora não constitua um bloco homogêneo, mas um conjunto de orientações morais, culturais e políticas que enfatizam a preservação de valores considerados tradicionais, especialmente no que se refere à família, à religião, à autoridade, à ordem social e à hierarquia normativa. Em tempos recentes, esse conservadorismo tem forte relação com o cristianismo (sobretudo em vertentes evangélicas e católicas), com pautas relativas à moral sexual, à educação e ao papel do Estado na regulação dos costumes. Porém, esse discurso da família tradicional e comportamental, mostra um certo descompasso entre a narrativa em defesa da vida, da ordem, da família e comportamentos que na prática revelam violência, intolerância ou crueldade. A mera adesão formal a valores tradicionais não garante internalização ética consistente.

Segundo Santos (2018), parcelas da população que se autodeclaram tradicionais e conservadoras orientam-se por preceitos religiosos e morais que podem prejudicar princípios constitucionais como liberdade, igualdade e fraternidade. O autor argumenta ainda que tais grupos tendem a universalizar seus padrões de conduta como modelo normativo para a sociedade, promovendo juízos sobre aqueles que não se enquadram nos referenciais historicamente estabelecidos.

Em síntese, o episódio analisado evidencia que o espaço carnavalesco permanece como território privilegiado de disputa simbólica, no qual valores, identidades e projetos de sociedade são tensionados publicamente. A sátira da “família em conserva” não constituiu ataque à instituição familiar nem à fé religiosa, mas provocação crítica dirigida à idealização de modelos rígidos e performáticos que desconsideram a complexidade e a diversidade das relações sociais.

Ao deslocar para a avenida debates sobre conservadorismo, moralidade e violência de gênero, a escola de samba reafirmou o carnaval como espaço legítimo de reflexão social e de problematização de narrativas hegemônicas. A repercussão do desfile ocorreu em um contexto de intensa polarização política, às vésperas de um novo ciclo eleitoral, no qual diferentes campos ideológicos disputam interpretações e sentidos sobre a vida pública. Nesse cenário, setores mais alinhados a posições conservadoras reagiram de forma contundente, mobilizando discursos e estratégias comunicacionais de lacração que buscaram enquadrar a representação carnavalesca como ataque à chamada “família tradicional brasileira” e como instrumento de enfrentamento político ao governo federal. Contudo, reconhecer que não existe uma “família enlatada” — homogênea, idealizada e imune a tensões — mas sim arranjos plurais atravessados por conflitos, desigualdades e desafios cotidianos, constitui passo essencial para a construção de uma cultura pública orientada pelo respeito, pela dignidade humana e pela justiça social.

Por José Edson da Silva Barrinha, professor do IFMA e doutorando em Políticas Públicas da UFPI.

Fonte Consultada:

SANTOS, José Victor de Oliveira; et AL. Conservadorismo, posicionamento político e preconceito contra casais adotivos homossexuais. Estud. Psicol. V. 23. Natal. Jan. e mar. de 2018. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-294X2018000100007&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt/acesso: 03 mar 2026.

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