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sábado, julho 20, 2024

No Chile e em Pedreiras: o que leva o povo às ruas?

Avenidas, praças e esquinas ocupadas por pessoas, uma cena que sempre me fascinou. É sobre ter a coragem de defender alguma coisa, mas aí, devemos ter cuidado sobre o que se defende. As ruas dizem tanto, versam com maestria sobre as tendências de determinada sociedade. No Brasil isso sempre foi muito latente, sendo elas ocupadas por aqueles em busca de mais direitos ou por aqueles que desejam suprimi-los. Ainda que lutem para subverte-las, as ruas sempre foram átrio das grandes mudanças, em especial, pelos movimentos populares.

Leio nos jornais sobre o domingo no Chile, quando o povo daquele país, 78%, optou por uma assembleia constitucional, enterrando de vez os ecos ditatoriais de Augusto Pinochet. Haverá uma nova Constituição, demanda reivindicada pelo povo que ocupou as ruas por meses, cerca de 1 milhão, mas não sem o intento de Sebastian Piñera, de fazer calar, pelo uso das forças militares, a voz de quem queria uma nova Carta Fundamental. Cabe salientar que essa não é a única bandeira erguida nos atos iniciados em 2019.

“O movimento chileno não é liderado pelas instituições clássicas, como partidos e sindicatos. Portanto, nenhuma força política poderia reivindicar uma vitória que, acima de tudo, foi protagonizada pelos cidadãos” assim escreveu Rocío Montes, no El País Brasil.

A convenção constitucional (escolhida em abril) será composta por 155 pessoas, 50% delas mulheres.

Distante do Chile, na Rio Branco, mais importante avenida de Pedreiras e centro comercial da região do Médio Mearim, no estado do Maranhão, tal qual as ruas da capital chilena, nossas vias estão sendo diariamente ocupadas. O que leva os pedreirenses às ruas? De longe até parece carnaval. Na sexta a multidão é azul, no sábado laranja, no domingo verde. As bandeiras não trazem demandas, tão somente os rostos sorridentes daqueles que, por quatro anos, querem gerir a cidade. O que leva esse povo às ruas? Sonho coletivos, dinheiro ou emprego?

Para uma parte considerável, a cidade melhor, de todos, fica para depois. Pensa-se, tão somente, no cercadinho. A economia local depende de forma expressiva dos dividendos do funcionalismo público municipal. Tanto que o atual gestor, pelo menos no quesito pagamentos em dia dos servidores, é ovacionado.  

Existe algo que separa o povo nas ruas do Chile e o povo nas ruas de Pedreiras: aquilo que buscam nela. Aqui, a juventude tão desamparada, deixa suas bandeiras em casa para defender e erguer outras tão distintas de si. Topa ser figurante em uma dinâmica política que historicamente a marginaliza e massacra. Caminha lado a lado com aqueles que defendem os interesses do setor privado na área de educação. A mesma juventude que não foi às ruas pela implantação do curso de Direito na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), Campus Pedreiras. Boa parte desses jovens não ingressará no curso dos sonhos aqui, em sua cidade natal.  

O que leva nossa multidão ás ruas é o imediato. A fome, a luz, a água, um emprego. Outros são levados pelo poder, pelos benesses da máquina pública. A cidade melhor fica para depois.

Do meu quarto, de onde posso observar o que se passa lá no Chile e nas ruas da minha cidade, uma dualidade invade-me. Oxalá que vença a esperança de ver algo, à semelhança de nosso vizinho latino-americano, ocorrendo nas ruas da minha cidade e nos grandes centros urbanos do meu país.

Nossas ruas, esquinas e becos, por vezes testemunhas do protagonismo popular, se apequenam em tempos como o de agora. O que nosso povo comemora liderado por oportunistas, torturadores, usurpadores da coisa pública e enquadrados pela prática de trabalho escravo?  Porque nosso povo deixa de ser protagonista para se tornar adubo dos que se deitam na eterna dependência do poder? Os Pedreirenses não conhecem sua história e nem o que fizeram na “noite passada” aquele que os lideram.

Chama-me a atenção as fotografias das mobilizações chinelas, em sua maioria retratando multidões. Não haveria composição mais contundente da natureza da história que é escrita ali. Um movimento popular, de muitos rostos e desatrelados da política institucional. Só democracia representativa não basta. No Brasil, as comunidades tradicionais e infinitos movimentos sociais do campo e da cidade evidenciam tamanha verdade. Só o voto não basta. A democracias precisam ser pensadas a partir dos territórios. Democracia no plural? Sim! Falamos em territórios, e estes não são homogêneos, por que a democracia haveria de ser? Agora tudo o que temos é uma de cima para baixo, constantemente sacolejada.

Que um dia os pedreirenses ocupem as ruas caminhando num sentido comum, por um lugar comum. Por hora, vem do Chile o alimento das minhas utopias locais.

Que o povo seja protagonista!

Por Joaquim Cantanhêde

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Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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