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terça-feira, abril 16, 2024

Maria do Socorro Menezes: a saudade que traz é a mesma que leva

Rua do Campo, Trizidela do Vale (MA), entre idas e vindas, cães que ladram, sons diversos, Maria do Socorro Menezes planta, nas folhas dos cadernos, sua poesia. De Lavras da Mangabeira, estado do Ceará, não vê a hora de voltar à sua terra natal, o que “se Deus quiser”, acontecerá em breve. O êxodo para cá, aos 20 anos, cobrou dela sacrifícios que a ninguém mais é possível descrever. Tal qual uma árvore arrancada, mas quando se trata de uma mulher poetisa, a raiz não fica debaixo da terra.

Enquanto o tempo avança, feito o trem que João do Vale pegou em Teresina, Maria, aos 80, só tem pressa quando chega visita, incomuns nesse tempo de pandemia. Ai de quem não a escute quando tem nas mãos um caderno. Aliás, as páginas contidas nele se convertem numa extensão da mulher filha de Calabaço, um sítio que povoa as suas melhores memórias. Poetisa, cordelista, artesã, autodidata e alfabetizadora de longas datas, fez da sala de aula um castelo ante a saudade, que sempre a acompanhou na volta para casa.

Maria faz arte até na hora de assinar o nome. Foi o que testemunhei, há pouco dias, num cartório. Também pudera, parte de sua paixão tá ali, no ato sublime de escrever a si. Na ocasião assinara um documento para receber dezenas de exemplares de uma obra de sua autoria, conquista fruto de seu cotidiano criativo. Sai um edital e Maria tá lá, pelas beiradas, ocupando espaços antes imaginados.

Maria do Socorro Menezes. A arte ilustra a capa do livro “Retalhos de Maria” (Fotografia/Arte: Joaquim Cantanhêde)

“Coisas que pedi há muito tempo e agora estou vendo se realizar. E foi à quem que pedi? A Deus. Queria ver meus versos ganharem o mundo e pois não tá ganhando o mundo?”, indaga Maria, como quem ainda não crer em tantas coisas boas que lhe abraçam no apagar de 2020. Continua: “Aí a gente deve concluir que nunca devemos desistir dos nossos sonhos, não é? Se tivesse não estaria alcançando”.

A poetisa, que não é chegada ao universo virtual, da qual tudo se faz hoje em dia, incluindo os editais literários, conta com o fundamental suporte da família e de amigos, entre ele o saudoso poeta Samuel Barrêto, que a auxiliam nas inscrições e trabalham para que a obra de Maria do Socorro ganhe também os ares no universo virtual, podendo ser lido, inclusive, nos populares Smathphones.

“Graças a esses editais ela, juntamente com sua equipe, gravará um segundo documentário sobre sua vida e obra, publicará um segundo livro de poesias que é autobiográfico e retornará à Lavras, que é a segunda etapa do projeto “Sonhos de Maria e família”, explica Ana Nerés, também poetisa. A relação entre as duas já dura a metade de uma década. 

 Sobre a possibilidade de voltar a pisar no seu solo sagrado particular, Maria não titubeia: “Muito agradecimento em virtude da alegria que estou sentido por conta dessa viagem que a gente vai realizar. Esse sonho também já tem um tempo. Não é de poucos dias atrás. Se Deus quiser, permitir, estaremos indo”, explica a poetisa com alegria que escapa até pelos poros.

Maria do Socorro voltará para sua terra, ao que se planeja para as bandas de janeiro do ano seguinte. Regressará com um bocado de vivências e os cabelos brancos que lhe coroam. Retornará em carne, livro e documentário, ambos intitulados “Retalhos de Maria”, lançados em 2015. Soma-se a isso as inúmeras participações em obras coletivas, a mais recente delas é a Antologia “Outubro Poético”.

Maria do Socorro Menezes, poetisa (Foto: Joaquim Cantanhêde)

Na terra de sua fuga, Pedreiras (MA), passou a ocupar espaço na Associação dos Poetas e Escritores de Pedreiras (APOESP) e imortalizada ao ter assento na Academia Pedreirense de Letras (APL).

“Voltaire diz que ‘A poesia é a música da alma, e, sobretudo de almas grandes e sentimentais’. De fato, só uma alma grande e sentimental é capaz de se transformar em poesia. Sempre vi minha avó tecendo com linhas e com palavras, e não imaginava que naquele ir e vir da caneta ela se revelava poesia. E que este revelar-se poesia era e é a maneira de nos apresentar a sua alma grande e sentimental.  Hoje, poder, ainda que de maneira tímida, contribuir para que a sua poesia ecoe, ultrapasse os muros de nossa casa e de Pedreiras é motivo de muita alegria e gratidão, além de me fazer refletir sobre as muitas maneiras que eu tenho para dar ainda mais força e dimensão ao seu fazer poético.

Ver o sonho de minha avó ganhando contorno muito bem definido tem um significado imensurável para todos nós. O mais gratificante é sentir sua felicidade e realização ao ver sua obra eclodir. Meu coração está radiante com todas as conquistas alcançadas por ela e muito grato aos amigos que se empenham com muito carinho na concretização dos sonhos de nossa poetisa. Sonhos estes que agora são coletivos”, pondera Raymenna Furtado, professora, neta de Maria do Socorro.

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Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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