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Pedreiras
segunda-feira, abril 15, 2024

Josivan Pereira: a música como resposta



Pedreiras, cidade do interior do Maranhão, indiscutivelmente reconhecida pela efervescência de sua cultura. Sob a grandeza de João do Vale, maranhense do século XX, muitos pedreirenses enveredam pelo incompreendido caminho da arte: música, poesia, pintura e por aí vai. A crise derivada da Covid-19 reconfigurou o modo de ser plateia, impondo-os o desafio da adaptação. Para muitos de nossos artistas cultura é a única fonte de renda.

À espera de dias melhores, Josivan Pereira de Almeida (48 anos), cantor e compositor, se cerca das palmeiras que revigoram as memórias da infância vivida no povoado São Pedro dos Quadros, Trizidela do Vale (MA), enraizada na quebra do babaçu, trilha sonora de muitos quintais em um estado ainda densamente desigual.

O violão é quase como uma sombra. Josivan não tem pressa. Canta uma, duas, três. Agoniado não é bem um adjetivo que lhe caiba. O alpendre de sua casa, localizada no povoado Olho D’água, Pedreiras, o protege do sol. É ali que partilha, com O Pedreirense, perspectivas e melodias. Descreve memórias, pondera sobre as lives, racismo, o valor que a cultura deveria ter em Pedreiras e pondo o violão no colo, canta.

Que seja a primeira de muitas entrevistas.

O Pedreirense. Na música “Minha história”, João do Vale cantava, “eu vendia pirulito, arroz doce a mungunzá”. Como foi a sua infância? O que há em comum entre a história de João e a sua?

Josivan Pereira. Não cheguei a vender pirulito, mas já trabalhei com gado, quebrei coco e rocei juquira. Essas coisas no começo da nossa infância, que não foi aquela infância rica, foi pobre mesmo, humilde. A minha carreira vem sempre, desde o começo, regada de muita humildade.

OP. Quantas pessoas na família?

JP. Na minha família nós somos onze. Criados no povoado São Pedro dos Quadros, município de Trizidela do Vale. Os ensinamentos sempre foram os melhores. Os meus pais não tiveram estudo, mas deram uma educação muito boa pra gente. O que meu pai me ensinou foi a gente ter fé.

OP: Ser negro foi em algum momento um fardo, obstáculo?

JP. Graças a Deus tive a sorte de quando era adolescente ter assistido algumas palestras e isso maneirou mais. Acho que a pessoa tendo talento dá até para mascarar um pouquinho. Essa coisa do negro o pessoal não ver muito quando a pessoa tem muito talento e mostra um trabalho legal. Já houve algumas situações de chegar em um lugar que o pessoal não me conhece, não saber quem sou e perguntar, “aquele é o cantor?”. Também situações de chegar e a pessoa não botar fé, olhar pra mim e balançar a cabeça, mas graças a Deus tenho isso aqui (aponta para o violão) como resposta: a música. É tanto que cheguei nesse lugar numa sexta-feira pra tocar no domingo pela manhã. Liguei o som e o pessoal nada de olhar pra mim, não estavam nem aí. Quando comecei cantar, fazer a troca de vozes, feminina e masculina, de repente despertou, começaram a aplaudir, do começo até o final. Tinha dormido num lugar humilde, na casa do cidadão que me contratou. Quando terminou a festa a esposa do dono disse: “você vai dormir no segundo andar, em uma suíte”. Essas coisas que acontecem assim, mas graças a Deus me sinto preparado para encarar. O pessoal diz que é crime, mas o racismo são dois crimes: um crime na terra e pecado no céu. Quem é racista está passando para o outro lado, pois tem o lado de Deus e tem o outro lado.

OP: A música representa arte na pluralidade de ritmos e arranjos e carrega a marca de todo artista por onde quer que ele passe. Qual é a marca de Josivan?

JP. As amizades que eu faço. É o que me segura até hoje, porque você tem o seu público, que são seus clientes e eles são as pessoas que lhe admiram e acreditam no seu trabalho. Se eles lhes admiram e acreditam no seu trabalho com certeza vão querer ser seus amigos. Prezo por isso, minhas amizades. Todas as cidades que ando, quando termino de tocar, bato um papo com a pessoa que me contrata, com outros que estão ali por perto, chegando para procurar alguma coisa. A gente acaba criando um laço de amizade e isso é muito importante para o artista. Não tenho essa coisa de terminar e falar, “eu vou dormir pois tô cansado”. Não tem isso! É o que me segura até hoje no mercado. Sou considerado ultrapassado no mercado, mas um músico não fica velho. Um jogador de futebol quando chega dos 35 anos já tá pensando em parar e o músico não, quanto mais velho mais ele é experiente. Minha marca são as amizades que eu faço.

OP. Cultura sempre teve a ver com pessoas reunidas, aglomeradas. Com a pandemia, até o momento o distanciamento social tem sido a medida mais eficaz para que se evite um caos maior.  Como você, enquanto cantor e espectador, tem encarado as lives? Pretende fazer alguma?

JP. Fui convidado para várias e agora tô preparando outra, que ganhei para fazer sozinho. Sempre estive coletivamente. Essa eu vou fazer solo, pois ganhei toda a despesa. É bem diferente. Mudou muito e nas primeiras lives fiquei assim, nervoso, pois a gente tem sentimento e sabemos que tem morrido muita gente. Não estava nem com muita vontade assim de cantar, mas depois fui acostumando e sem público, só com as câmeras na frente, o nervoso é o mesmo. Sempre você está nervoso, não está diante das pessoas, mas sabe que elas estão assistindo quando você tá cantando ao vivo de frente para as câmeras.

OP. A música é sua única fonte de renda?

JP. Sempre foi a minha maior fonte de renda.

OP. Como tem se virado diante dessa realidade imposta pela Covid–19?

JP. Com as lives, ajuda de colegas e como acabei de dizer, a gente faz muita amizade. Alguns colegas que seguraram a barra, porque quando veio a pandemia, que disseram que vão fechar os bares, fechar os restaurantes, como é que fica a música? Nós fomos os mais prejudicados, porque parou total. Graças a Deus que veio essas lives aí gente.

OP. Inspiração é um processo natural. Não trabalha com datas e dias específicos. Como se dá seu processo de criação?

JP. A gente diz, “vou fazer uma música hoje”, acaba dando certo, mas tem vez que não. Vem naturalmente, onde você estiver, não tem essa coisa de você está deitado ai inspiração vem. Você pode estar conversando aqui, de repente a inspiração vem e é assim que acontece comigo, não sei com outros. As vezes vem letra, melodia, na cabeça. “Nossa melodia legal vou botar uma letra”. Ando sempre com meu celularzinho aqui no bolso de gravador, aí quando acho muito interessante gravo. Quando eu chego em casa vou passar ou se for melodia coloco em cima da palavra.

Cantor Josivan Pereira (Foto: Joaquim Cantanhêde)

OP. O que sua trajetória de 25 anos te diz? O quanto você mudou de lá para cá?

JP. Aquela coisa do vencedor, do cara que chegou aqui, como diz o ditado, puxando uma cachorrinha e hoje estamos aqui sendo entrevistado e homenageado. Ganhei três festivais de marchinha, um festival de música popular. Foi uma marca legal na minha carreira. Nunca tinha participado de show de calouro, aí de repente ver o “Canta Pedreiras”, primeiro festival que aconteceu aqui, que considero o maior, porque pegou toda a nata da música pedreirense. Quando organizaram esse festival estava de fora, não era nem conhecido aqui direito, trabalhava em uma banda de Caxias. Um dos cantores desistiu de cantar uma música que já estava classificada no festival. A saudosa Loirinha Assaiante iria cantar “Sem abstração”, de Nonato Matos, Brandinho e Daniel Lisboa. Ela desistiu e com isso procuraram um intérprete. Surgi na parada, acharam Josivan. Me deram música só para ela não ficar de fora Ninguém achava que ia acontecer alguma coisa, já tinham vários favoritos. Peguei a música, ainda cheguei a devolver, porque não era o estilo que eu tocava na época. Pegava meu violãozinho em casa, gostava de música romântica, mas não era o que tocava em banda de baile. “Não rapaz, pega a música! Faz o que você puder!”. Comecei ensaiar e treinar em casa. Josivan vence o festival no meio de tantas feras. Em 2008 resolvi participar do Festival de Marchinhas de primeira já ganhei. O segundo veio em 2015, terceiro lugar.

OP. A cultura pedreirense tem o valor merecido?

JP. A gente as vezes não quer falar da cidade, mas vou falar aqui o meu ponto de vista: ainda não somos valorizados como merecemos, mas a gente sabe que isso é desde o começo do mundo, o santo de casa não obra milagre. Tenho outra coisa a dizer. Mesmo com toda essa desvalorização que a gente acha que tá acontecendo, Pedreiras ainda é a cidade que mais valoriza o artista, porque eu ando por muitas cidades Maranhão. Viajava direto, agora com a pandemia dei uma parada, mas a gente vê como é que é tratado o artista da cidade e Pedreiras ainda é a cidade que mais valoriza.

OP. Quem é o Josivan?

JP. O Josivan é aquele cara humilde, desprendido de mordomia, essas coisas. Aquele cara que gosta de ajudar os outros cantores. Pessoal da minha área chega no local em que tô cantando… Qualquer um que chegar e disser, “rapaz eu quero cantar uma música aí”, eu deixo. Nisso vão nascendo outros, as vezes dá certo, as vezes não dá certo, porque o cara não tem talento, mas quem tem chega lá em cima e muitos me agradecem por isso. É a recepção, minha parcela de ajuda, o que eu posso dar. É isso que eu defino, humildade sempre.

Cantor Josivan Pereira na juventude (Foto: Joaquim Cantanhêde)

OP. A música está por todo canto, percorrendo caminhos diversos, realidades distantes. Como a define?

JP. Sempre foi a minha vida. Nasci e cresci gostando de música. Eu costumo até dizer que não foi eu quem procurei a música, a música que chegou até mim. Eu não sei como, não tinha pretensão de ser cantor. Meu irmão mais velho começou a brincar e fazer viola de pau e ele tocava um pouquinho. Quando eu vi aquilo pela primeira vez, aquele som e aquela viola eu fiquei encantado. Aonde ele estava eu estava atrás. Ele sentiu que eu tinha me encantado pelo “negócio”, me passou o que sabia e depois fui aprendendo sozinho. Outro irmão que estudava na cidade mandou um violão pra mim e o método fui aprendendo sozinho.

OP. Que música você vai interpretar agora?

JP. Eu queria mostrar uma música que fiz, a mais rápida. Era uma poesia do Dr. Edivaldo Santos, poeta da nossa cidade.  Ele chegou com a poesia “Paixão de um rio” e quando eu olhei a música foi questão de alguns segundos já nasceu, já era música, foi muito rápido!

Por Joaquim Cantanhêde e Mayrla Frazão

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Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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2 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns! Matéria excepcional. Josivan é um dos gigantes que temos, tenho um respeito muito grande pelo seu trabalho. É admirável!

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