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quarta-feira, julho 17, 2024

Janeiro Branco: “o respeito pela subjetividade é que sustenta a nossa profissão”, diz a psicóloga Welida Cristina

O caminho que traçamos pelo nosso consciente e subconsciente é unicamente nosso. Um trajeto que envolve inteiramente a subjetividade do nosso estado de espírito, de nossos sentimentos e também de nossos bloqueios. Muitas vezes, o tema “saúde mental” pode esbarrar no complicado, por isso, facilitar esta compreensão é o principal objetivo da campanha Janeiro Branco, que acontece anualmente, durante o mês de janeiro, para pautar, de maneira simples e acessível, sobre a importância da saúde da mente humana.

Neste ano de 2021, mais do que nunca, o tema “saúde mental” ganhou notoriedade, em virtude da pandemia da Covid-19. Segundo pesquisa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), durante o isolamento social, os casos de depressão aumentaram 50% e a ansiedade e o estresse em 80%. Os números evidenciam o impacto que o inesperado pode ocasionar, principalmente quando atrelado à dor da perda, ao medo e à incerteza. Deste modo, a responsabilidade dos profissionais que cuidam da mente se intensificou, e se estende sob os efeitos colaterais de um ano que ainda deixa marcas.

Em entrevista ao portal O Pedreirense, a psicóloga Welida Cristina Silva, que atua há oito anos na área da psicologia em Pedreiras, Maranhão, ressalta a importância da campanha Janeiro Branco, os impactos da pandemia à saúde mental, os desafios que envolvem sua profissão. A psicóloga ainda se debruça em um dos assuntos mais polêmicos da psicologia: a loucura. Acompanhe.

O Pedreirense: O que é o Janeiro Branco?

Welida Cristina: Historicamente falando, é uma campanha criada por um psicólogo mineiro chamado Leonardo Abraão. Ele percebeu uma necessidade de falarmos de saúde mental de uma forma mais prática, digamos assim, porque existe bastante preconceito nessa área. Ainda hoje, infelizmente, mesmo com a campanha e com vários esclarecimentos, tem-se a ideia de que a saúde mental não tem meio termo: ‘ou você é bom ou você é louco’. Parece que você não pode falar dos transtornos sem desmistificar isso. Então ele buscou falar da maneira mais simples sobre a saúde como um todo, incluindo a saúde mental. – E porque janeiro? Geralmente (neste mês) nós temos o costume de jogar as coisas fora, renovar, e dar essa ideia de renovar as energias mesmo. E o branco porque a folha em branco é aquele mundo de possibilidades que a gente pode escrever a nossa história.

OP: Que impactos a pandemia trouxe à saúde mental?

WC: Um dos detalhes mais importantes que eu vejo que aconteceu, pela questão do isolamento, é realmente o olhar pra dentro de sí. Quando nós somos obrigados a fazer isso, digamos que dar mais trabalho, porque aí você entrou em contato com várias questões suas que antes você não percebia, porque você tinha uma rotina toda preparada, de trabalho, de estudo, família, que antes você não parava pra perceber. Então, primeiro nós somos obrigados a ficar em casa, a conviver mais tempo com as pessoas da nossa família e também a olhar um pouco mais pra nós. No mesmo momento nós temos também a questão da fragilidade, pois estávamos com medo, nós não sabíamos o que poderia acontecer, o vírus era desconhecido então tudo isso influencia pra que vários fatores da saúde mental pudessem ser levados em conta. A questão da ansiedade, se antes eu tinha uma prática de exercícios, que ajuda bastante, na saúde mental, agora não posso mais ir a uma academia ou a um espaço público, mas em compensação eu posso fazer em casa, mas será se minha casa tem espaço pra isso? Então, todo esse diferencial nos levou a varias reflexões, desde ao medo, ansiedade, estresse, questões financeiras, percas de emprego… Então isso acarretou bastante ao adoecimento, a gente viu que realmente as taxas aumentaram, mas na psicologia fizemos uma pergunta: ‘será que aumentou por causa da pandemia ou eles já estavam lá e a pandemia nos obrigou a olhar com esse olhar diferente?

OP: Durante o isolamento social, as pessoas passaram mais tempo nas redes sociais. Isso influenciou a um aumento de casos de doenças psicológicas?

WC: Sim, não somente as redes sociais, mas a mídia com um todo. O que que acontece? A gente tem que ter bastante cuidado com os conteúdos que a gente aos quais nós temos acesso. Elas são importantíssimas, pois através dela nós conseguimos nos comunicar melhor, já que a gente não poderia estar tão perto fisicamente, então a gente acabou se comunicando melhor, tendo acesso à notícias mais rápido, só que, se eu passo mais tempo nas redes sociais somente fazendo isso, observando somente notícias sobre o coronavírus, somente vendo as dificuldades que estamos vivenciando, isso com certeza vai piorar a nossa saúde porque não vamos estar trabalhando a favor do bem estar, que é pensar em coisas boas, que é tentar refletir de uma forma mais leve. Na psicologia também abordamos o medo que as pessoas ficaram vendo notícias desencontradas, porque isso piorou. Tudo isso acaba sobrecarregando e se a gente olha essa notícia e a gente não tem preocupação de investigar e saber se realmente é, mesmo que muitas vezes involuntariamente você vai se sobrecarregando involuntariamente porque você vai adoecendo.

OP: E em relação à autoestima e frustrações que as redes sociais proporcionam?

Muitas vezes o que a maioria dos adolescentes hoje consegue transparecer de adoecimento, muitas vezes tem a ver com isso, porque se eu estou olhando alguém que tem um padrão de vida diferente do meu e que eu considero melhor, é claro que aquilo ali pode gerar uma frustração, na psicologia temos o cuidado de não fazermos tantas afirmações, o que acontece é: se eu tenho o costume de ficar frequentemente nas redes sociais vendo eventos, coisas, e almejando coisas que não fazem parte da minha realidade, se eu colocar isso como um incentivo ou como uma força, é uma coisa, mas se aquilo vai me consumindo e eu vou me comparando com aquele padrão de vida, temos que ter cuidado.

OP: Quais são as doenças que envolvem a saúde mental?

WC: É muito abrangente, pois são inúmeras doenças e cada vez aumenta mais. Antigamente a gente tinha muito a preocupação de ir ao psicólogo ou psiquiatra, por receio de achar que é louco. Hoje em dia não, se meu coração acelera e aparentemente eu não tenho nenhum problema físico, hoje já conseguimos falar com mais calma e propriedade, investigar se é um sintoma psicológico que está afetando o físico, então tudo isso precisa ser investigado. As doenças podem ser inúmeras, partindo desse sentido.

OP: O que é loucura?

WC: Quando você me pergunta o que é loucura, a gente vai entrar em um dos assuntos mais polêmicos que tem na questão da saúde mental, porque de repente o que é loucura pra mim é sanidade pra ti, entende? Aquilo que é “normal” pra mim, pra ti não pode ser, mas é claro que a gente sabe que existe um padrão sobre a busca pelo equilíbrio, então se eu busco meu bem estar, eu busco estar bem diante de uma situação, de repente eu sofri um acidente e houve um trauma, mas eu consigo resolver. Mas a partir do momento que eu identifico que houve um problema ou um bloqueio, uma dificuldade, já tem uma alarmezinho piscando, mas e a loucura? Até que ponto ela vai chegar? Isso não tem como estabelecer, pois a questão de padrões está fora da psicologia porque a gente respeita muito a subjetividade. Cada organismo reage diferente às situações e isso precisa ser respeitado, então de reprende o que pode me afetar bastante, a  você não pode afetar nada e isso não significa que eu seja fraca, porque em outras situações o quadro pode se inverter, então não temos como falar, pois é o respeito pela subjetividade que sustenta a nossa profissão. Eu não receberia meu paciente no consultório, se eu achasse que só tinha que enquadrá-lo em um padrão do dito normal da sociedade.

OP: Qual o principal desafio de sua profissão?

WC: Profissionalmente falando, para mim desde o começo, até agora é aquela ideia da pessoa ser uma folha em branco. Cada pessoa que chega ao nosso consultório, eu tenho que me preparar para estar livre dos meus preconceitos, de alguma questão minha que possa surgir de repente se é de uma religião diferente, se tem um padrão de comportamento daquilo que eu acredito, eu conseguir me desprender da Wélida pessoa e me tornar a Wélida profissional, porque se eu receber esse paciente cheia de preconceito eu não vou deixar que ele traga a demanda dela para mim e eu conseguir orientá-lo a partir dali, pois nosso dever não é dizer o que ele tem que fazer, nós orientamos a partir da sua realidade e nós muitas vezes, o paciente chega querendo respostas.

OP: E a cura?

WC: A cura também é muito subjetiva. De repente, uma pessoa chegou para mim, ela sofreu um acidente e não está mais conseguindo dirigir. Ela fez o tratamento, e agora ela consegue, mas eu não posso te dizer que ela está curada, porque aí talvez possam ter surgido outras demandas durante a terapia.

OP: Como cuidar da saúde mental em 2021?

WC: Partindo do princípio de que nós ainda estamos em uma pandemia, os cuidados básicos, claro, com nossa saúde física que são importantes e influenciam na nossa saúde mental. Mas é realmente buscar o equilíbrio nas nossas escolhas, na nossa alimentação e buscar leveza na vida.

Por: Mayrla Frazão

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Mayrla Frazão
Mayrla Frazãohttps://www.opedreirense.com.br
Jornalista - Centro Universitário de Ciências e Tecnologia do Maranhão (UniFacema)
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