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segunda-feira, abril 15, 2024

Frágil é uma ova

Não há como dialogar sobre justiça social sem trazer para a varanda questões que versam sobre as disparidades de gênero e o necessário reconhecimento, de múltiplas formas, do imensurável impacto social que ecoa das trajetórias de luta de mulheres em contextos distintos. Brasileiras, maranhenses, pedreirenses. Nesta reportagem dialogamos com cinco mulheres, diferentes em suas particularidades, semelhantes na decisão de serem livres, ecoando tamanha liberdade através de suas profissões. Trazem-nos relatos e os rostos marcados por dias de luta.

Seja ela travada no Hospital Geral, 19º Batalhão de Polícia Militar, feira do peixe, rio Mearim e num campo de futebol, Marinalva Nunes, Winnie Barbosa, Matilde Gonçalves, Francineude Ribeiro e Samira Neves, distantes geograficamente, mas que se encontram na força e na resistência.

A força de uma mulher através do verbo cuidar

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Marinalva Nunes Carvalho, enfermeira (Foto: Joaquim Cantanhêde)

Para lá e para cá, assim acho Marinalva Nunes Carvalho, de verde do pescoço aos pés. É dia de plantão no Hospital Geral de Pedreiras. Falha nossa primeira tentativa de conversar pessoalmente com ela na manhã de sábado (06). Horas depois, via mensagem de texto, diria: “Pode vir, tá mais calmo!”.

Se hospital não é lugar de calmaria em dias normais, quanto mais em tempo de pandemia. As restrições do governo do estado dizem sobre o Maranhão em vermelho no mapa do Jornal Nacional. Em meio aos corres do dia, escolhe seu lugar de repouso como espaço para a entrevista.

Marinalva Carvalho tem 47 anos, 21 deles dedicados à enfermagem. É mãe de Mayane, Júnior e de Vitor, o filho caçula. Enquanto parte da sociedade especula, essa mulher conhece na prática o grau de letalidade e sofrimento causado pelo Coronavírus.

“A sensibilidade aumentou. Você vê pessoas se acabando em questão de horas, minutos. O que passamos aqui… Todos se doaram. Sabe, se entregar como se fosse alguém seu? Temos o mesmo objetivo: se doar”.

A face de Marinalva, durante esse relato, retificava a intensidade do momento que ela vive ao lado de tantos outros profissionais da saúde na linha de frente. Seu corpo, mais magro, versa sobre sacrifício e amor.

“É intensivo. Você tem que tá ali olhando. Perdi peso na pandemia. Como? Às vezes não ia almoçar e preferia ficar com os pacientes internados. Traziam o lanche, pois para mim, só resolveria se eu tivesse. Por isso saía daqui muito tarde. Houve uma jovem, cuja história me chamou bastante atenção. Ela tinha obesidade e quando veio eu estava chegando para o plantão. Fui medicá-la. Às 23h começou dessaturar. De manhã cedo foi fazer o exame”.

Do seu mudo, a partir de sua perspectiva, Marinalva faz uma leitura dos ecos sociais que a pandemia deverá deixar. Aproximarmo-nos uns dos outros é um dos impactos, apontados por ela, como consequência de toda esta crise. Ao seu modo explica: “Quantas pessoas não se descobriram, mas na pandemia aconteceu essa situação, a interiorização do amor ao próximo”.

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Marinalva Nunes Carvalho, enfermeira, em dias de luta contra à Covid-19 (Foto: Joaquim Cantanhêde)

Mas a relação de Marinalva com a enfermagem precede, em muito tempo, a chegada da pandemia. Um sonho de criança tardado pela falta de condições. Foi cuidando de um idoso que começou a trabalhar em um hospital, inicialmente na cozinha, daí as oportunidades foram surgido e com elas pessoas que a ajudaram. Há treze anos atrás o sonho do diploma teria concretude.

“Hoje sou uma enfermeira graduada. Louvo ao senhor, porque foi ele que me permitiu, porque nenhuma condição tinha. Quando meu companheiro faleceu, eu tinha uma casa com dois cômodos, três filhos pequenos e o salário de técnico. Então fui vender cosméticos para complementar. Alguns colegas na sala, ao qual nunca pedi, compravam as apostilas e traziam para mim”, detalha Marinalva, que coloca na conta divina tamanha benevolência.

Emocionada e relutante em citar nomes, fez questão de mencionar Rosana Veloso e Edmilson, pessoas que segundo ela, estariam ligados à FAESF quando cursava enfermagem. “Iria desistir por não ter como pagar. A questão virou uma bola de neve e não mais acreditava que iria concluir minha formação.  Um dia vinha para o trabalho, às 19h30, quando dona Rosana, em um Fiat, disse que queria falar comigo. Consegui uma parte do dinheiro e no dia seguinte fui falar com ela. ‘Marinalva, você vai para o estágio. Pega esse dinheiro e compra roupa e alimentos para seus filhos. Sou muito grata ao senhor que proporcionou isso e colocou pessoas para me ajudar”, recorda Marinalva, visivelmente emocionada.

Dona Raimunda Nunes, sua mãe, foi fundamental na jornada em busca de uma formação, que para tantos brasileiros, não é só sobre ter um diploma. Cuidou dos netos para que a filha continuasse sua jornada.

“Ela é a mulher que mais admiro. Ficou com cinco filhos pequenos, sem uma formação, mas batalhou, trabalhando nas casas, sofrendo e mesmo eu já adulta, me ajudou a realizar esse sonho”.

Uma mulher forte inspirando uma outra mulher forte.

“Quando vejo toda essa trajetória, o presente e o que almejo, me sinto uma mulher forte. Há momentos de fragilidade, porém, sempre me acho fortalecida. Para chegar aqui, rompi muitas muralhas”.

Imersa numa luta diária, Marinalva tem tempo para sonhar. Sua meta é a estabilidade e ser parte da equipe de enfermagem do Hospital Dr. Kleber Carvalho Branco. “O que não fiz hoje, quero fazer amanhã e me aperfeiçoar no amor e no cuidar”.

Uma mulher à prova d’água

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Francineude Ribeiro Sousa, tiradora de areia no rio Mearim (Foto: Joaquim Cantanhêde)

Nas águas em que Pequapá reinou, dona Francineude Ribeiro Sousa (48 anos) mergulhava sem temor. Do contato com o rio Mearim ganhava a vida, num labor que exigia-lhe fôlego e força: extrair areia cujo destino final era a construção civil. Atualmente aposentada, revigora as memórias de um tempo em que não teve saída, senão mergulhar nas águas barrentas.

“Quando nós chegamos aqui, em Trizidela, há quinze anos, não tínhamos condição e meu marido fez uma canoa e começou a tirar areia. Como não tinha serviço, fui ajudá-lo. Eu enchia meu lado mais primeiro que o dele (risos). Era um serviço pesado”.

Ao todo foram cinco anos, naquele momento da história os filhos (06 no total) eram pequenos e da extração de areia, ela e o esposo, garantiam o mínimo para os sustento da família. De fato, uma questão de sobrevivência. Já grande, um dos filhos de Francineude se encarrega de ajudar o pai.

Ao fazer um trabalho que requer bastante esforço físico, não raras vezes dona Francineude, natural da cidade de Bom Princípio, teve que topar com a admiração de outras mulheres. “Eu tiro!”, respondia sem gaguejar quando indagada acerca de sua profissão.

Foi dela, como faz questão de pontuar, que melhorou de vida.  Da juquira ao rio, sempre sujeita ativa de sua história. Fazer do rio Mearim seu espaço de ocupação diz muito sobre a mulher que é.

A relação com o rio transpõe à subsistência. Em sua vida o Mearim têm muitos derivados: é o pão de cada dia, o peixe na isca, a sede matada e a alma lavada.

“Sou uma mulher que faz, produz. Sou forte, uma guerreira”.

A força é ela

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Winnie Barbosa de Melo, policial militar do Maranhão (Foto: Joaquim Cantanhêde)

Ela dobra a farda com zelo, daí se percebe que ser uma policial militar não foi obra do acaso. Desengavetá-la teve certo ar de nostalgia, pois a vida de Winnie Barbosa de Melo (30 anos), anda longe de ser uma linha reta, mas como toda boa história, vamos ao começo.

De todas as entrevistadas ela é a única que conheço de longas datas, dos tempos de prosa pelos corredores da Faculdade de Educação São Francisco (FAESF). Ao contrário de mim, ela concluíra a formação em geografia. Naquele tempo, me recordo bem, já falava em ser policial militar, o que ocorrera em 18 de fevereiro de 2014. Lá se vão sete anos de ofício, altos e baixos e uma mulher que não dá sinais de arrependimento.

“Foi vocação! Sempre quis! Via na televisão, sonhava com aquilo e fui atrás”, responde sem pestanejar.

A determinação marca Winnie Barbosa desde a meninice e na farda, como agente da segurança pública do estado do Maranhão, encontrou um caminho para nutri-la.

“Eu vejo força na polícia militar”, ressalta, destacando sua identificação com a profissão. Como bem diz, faz o que gosta e os momentos ruins são contados nos dedos. Contudo, eles existem.

O pior, segundo ela, se deu em uma rebelião na Unidade Prisional de Ressocialização (UPR) de Pedreiras (245 km de São Luís), em 2014. “O número de policiais reduzido, a quantidades de detentos bem maior e tivemos que encarar. Para mim, a situação mais difícil da minha carreira”. Na ocasião, um detento morreu e outros seis ficaram feridos.

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Winnie Barbosa de Melo, policial militar (Foto: Joaquim Cantanhêde)

“Quando há alguém perto de ti, com medo, mas confia na tua presença, na tua capacidade de ajudá-la, caso seja preciso”, ressalta Winnie quando questionada sobre detalhes que lhe trazem felicidade no cotidiano militar.

Para ela boa parte dos pedreirenses compreendem o trabalho desenvolvido pela PM na cidade de Pedreiras, mas entende que existem também exceções, cujas razões se dão por diferentes motivos. “Quem reclama do trabalho da PM, sofreu, de maneira ilhada, por uma atitude negativa, ou mantém ligação com alguém que anda fora do trilho”.

Winnie sabe que no caminho do trem não há curvas, que qualquer desvio, mesmo involuntário, conduz a uma ruptura de ecos imensuráveis. Distante da fragilidade que costumeiramente se atribui às mulheres, ela não teme falar das dores, incluindo aquela causada por um tiro no pé. Em sua vida a expressão popular tem sentido literal.

“Estava no trabalho e houve o disparo acidental de arma de fogo. Me lesionou gravemente, me afastou das atividades de trabalho por aproximadamente dois anos, mas com a força, com a determinação que tenho, consegui retornar às atividades, obviamente, não como antes”, e reconhece: “Eu não sou a mesma policial, fisicamente falando, o que me trouxe algumas limitações, mas não me impede de fazer meu trabalho dentro da polícia militar no serviço administrativo”.

Da família, amigos da corporação e vizinhos recebeu amor. Nada que denotasse pena. Mostraram-lhe que de duas uma: choraria ou reagiria.

O “infortúnio” lhe impôs uma adaptação, do frenesi das ações operacionais para a sombra e as papeladas do setor administrativo, não tão calmo quanto possa imaginar aqueles que desconhecem o dia a dia do 19° Batalhão da Polícia Militar, localizado em Pedreiras, mas que lida com ocorrências de tantas outras cidades da Região do Médio Mearim.

Daí compreendemos a simbologia do ato que pari essa narrativa. O acidente trouxe ecos que transcendem o corpo. Por conta das restrições médicas, Winnie não usa o fardamento de outrora, agora engavetado, mas longe de ser uma lembrança triste, diz muito sobre perseverança dessa mulher.

“A instituição tem um padrão que deve ser seguido por todos. Agora o que acontece, é algo natural, instintivo. Os homens da PM tem um zelo incondicional para com as policiais. Não é nada que prejudique o trabalho, mas a gente percebe que eles, apesar de também estamos fardadas, fazendo o mesmo trabalho e encarando as mesmas adversidades, tendem a ter um zelo e isso é bom, porque há momentos de sensibilidade em que a gente precisa desse zelo incondicional”, pontua quando indagada sobre a relação de gênero dentro da corporação.

Fora dela, não entende que haja discrepância na recepção social do seu trabalho por ser mulher. “Admiração”, é o termo que usa. Relembra as ocasiões, quando, ao invés de abordar alguém, foi parada por populares que queriam uma foto com ela e outras policiais militares. Não raramente, explica parte do caminho que tracejou a mulheres que também sonham em seguir a mesma profissão.

Em mente, Winnie pensa em fazer um novo curso superior e passar em outro concurso público que lhe traga mais rentabilidade.

Inquirida sobre a mulher que é, diz ser prova viva de que essa história de mulher, um sexo frágil, é inverdade, não recorrendo a nenhuma teoria, tão somente à sua história de vida: “Sou uma mulher destemida e isso não significa que eu não sinta medo. Sinto, às vezes, só que não deixo ele me dominar. Digo mais, sou uma amostra, talvez minúscula, da força que toda mulher tem dentro de si e só precisa de coragem pra fazê-la surgir”.

“Todo mundo tem uma história”

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Matilde Gonçalves Bastos, peixeira (Foto: Joaquim Cantanhêde)

A vida de Matilde Gonçalves Bastos (66 anos) tem cheiro de peixe. O rio Mearim lhe dá de beber, comer, mas sua relação com ele se banha no abstrato, no que não se pode mensurar. É sobre se reconhecer na existência.

Ali, no lugar mais barulhento do Mercado Central, divide a lida com as filhas e filhos (dos dez apenas sete estão vivos), criados à base de peixe. Tudo começou na pesca, coisa que a idade já não permite mais. Juntando tudo, são 32 anos achando sentido em um cotidiano sem tantas variantes.

“Minha vida toda foi pescando, quebrando coco, na roça, desde os dez anos”, pontua dona Matilde, sentada num dos sofás da sala, no momento calmo do dia e longe da feira do peixe, ao qual retornaria no dia seguinte.

“Passar a noite no rio, perder sono, correr muitos perigos, tipo, de uma cobra pegar a gente, um jacaré, cair no rio e uma piranha morder ou mesmo um poraquê. Um dia peguei o choque de um que quase caia dentro d’água e se caio teria morrido. Quando o rio tá cheio é mais luta ainda”.

Sua rotina começa às 5h, quando boa parte da cidade ainda dorme. De casa para o local de trabalho são dez minutos, trajeto que ela faz pedalando. O trabalho na feira ocupa a parte da manhã. Em casa, na continuidade do dia, faz bolo no pote, vende sorvete, num ponto de venda que mantem em casa.

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Matilde Gonçalves Basto, peixeira (Foto: Joaquim Cantanhêde)

Assim como no mercado, os rebentos estão ali, ao lado. “Sou feliz em ver meus filhos ao redor de mim e trabalhando no mesmo serviço que eu. Moram todos aqui nessa rua. Aniversário, ano novo, natal, semana santa, está todo mundo junto”.

A vida de Matilde também é feita de turbulências. Lembra a ocasião quando fora proibida de tratar peixe no mercado, fato que lhe levou ao xadrez. Ao ser liberada, teimou. “Eu disse para a justiça: ‘meu trabalho é esse, tenho sete filhos para criar e é aqui que vou ficar. Se me prenderem, saio e volto de novo’. Assim fiz e venci”. No tempo citado por Matilde o peixe deveria ser tratado no rio.

Natural do Piauí, ela e sua família para cá se deslocaram em função da falta de trabalho no estado vizinho, isso em 1982. “Sofri muito aqui no Maranhão, mas venci e hoje estamos bem. Sou feliz!”.

Uma mulher na grande área

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Samira Neves, jogadora de futebol (Foto: Joaquim Cantanhêde)

Não importa se a grama está encharcada ou não. Quando a bola rola, o melhor é procurar Samira Neves no campo do povoado Pacas, cujo uma parte é administrado por Santo Antônio dos Lopez e a outra pelo município de Pedreiras. Dito e feito. Lá está na beirada calçando a chuteira. A jovem, que beira a maior idade, se define como “fanática” pelo futebol, que para si, vai muito além de uma brincadeira a cada final de tarde, em um lugar marcado pela ausência de políticas públicas, que inclusive, promovam a prática dessa e outras modalidades esportivas.

“Aqui tinha o time das mulheres mais velhas, isso quando tinha treze anos. Já tinha aquela vocação, mas o técnico, na época, não me colocava”.

Aos 17 muita coisa mudou para além do obvio e isso traz orgulho à Samira. Foi-se o tempo do “Fulano, me colocai aí!”. O futebol se tornou parte importante de sua vida. Persistir, permitiu-lhe bem mais que jogar no campinho da sua terra. Sabe de cór os lugares onde pôde mostrar seu futebol.

“Muitos dizem que é coisa pra homem, mas não desisto. Gosto de futebol, assisto tanto o masculino como o feminino e não deixo de ser mulher. Amo jogar”, pondera com bastante firmeza.

Há ainda uma parcela social alicerçada no preconceito que olha torto para o futebol feminino. Não faz muito tempo, precisamente 40 anos, elas eram proibidas de jogar bola. Logo, os ecos desta distopia social ainda podem ser fortemente sentidas em determinados contextos e Samira sabe bem disso.

“Embora a proibição oficial tenha caído no fim de 1979, muitas garotas ainda continuam impedidas, seja pelo machismo enraizado nas estruturas familiares, seja pela repulsa a meninas no ambiente da iniciação futebolística”, destaca Breiller Pires no El País.

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Na família isso não é tratado como tabu e no lar, Samira acha o apoio necessário para continuar. “Na hora em que chegam aquelas mensagens, ‘preciso de ti pra jogar’, só aviso para meus pais e vou. Nunca me empataram”, explica.

Durante a semana, as mulheres ocupam o campo para os treinos na segunda e terça-feira. Os dias seguintes são destinados ao futebol masculino, mas os homens, por vezes, querem impedi-las de jogar. Por isso, elas cobram um espaço que seja delas, precisamente uma quadra coberta, já que os dias chuvosos também atrapalham a rotina de treinos.

“Aqui os homens têm muito preconceito. A gente pede pra fazer campeonato nosso e eles dizem que não há como. Ficamos naquela peleja e nada vai pra frente. Fazem o campeonato deles. Há muito homem machista no mundo, nem por isso desistimos”.

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Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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