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domingo, abril 14, 2024

Da linha de frente à falta de ar: os dois lados da Covid-19

Distanciamento social, até aqui, o caminho mais viável para se evitar o aprofundamento de uma tragédia global. A Covid-19 ameaça, causa danos e mata. Numa condição mais vulnerável, profissionais da saúde de diversas áreas colocam suas vidas em risco, apesar da histórica desvalorização profissional e sucateamento da saúde pública no Brasil.

O enfermeiro Bruno Henrique Porto de Melo (30 anos), não pôde ficar em casa, por motivos óbvios. É parte desse time de profissionais que, diante das urgências impostas pela pandemia do novo coronavírus, lidam com a crescente demanda por atendimento no Sistema Único de Saúde. No seu caso, atuando na Estratégia Saúde da Família (ESF) e no Hospital de Campanha Dr. Kleber Carvalho Branco, localizado em Pedreiras, Maranhão. Um trabalho que não considera fácil. Após ter testado positivo para Covid-19, Bruno passou a conhecer o outro lado da história, marcada pelos sintomas, internação, alta e agora a recuperação. O enfermeiro relembra sua luta pela vida. Em entrevista ao O Pedreirense, diz que chegou a ter 50% do pulmão comprometido.

O Pedreirense: Os que estão na linha de frente lidam diretamente com o problema e correm maior risco de contrair o vírus. Que precauções passou a tomar com a pandemia e de que modo isso alterou seu cotidiano?

Bruno Melo: Hoje a saúde pública está sofrendo muito com toda essa situação da Covid-19.No Maranhão, graças a Deus, foram implantados esses hospitais de campanha. Pedreiras foi muita privilegiada por ter recebido do governo do estado esse hospital. Já a prefeitura, junto com a Secretaria Municipal de Saúde, realizou uma estratégia muito eficaz no combate a Covid-19, trabalhando em “Home Care” (Cuidado em domicílio). Tive o privilégio de ser um dos profissionais atuantes nessa estratégia. As maiores precauções que tenho são o uso correto dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), como álcool em gel, luvas, aventais, macacão, viseira, máscara, sapatos fechados, entre outros. Nesse sentido, em relação aos EPIs, nunca faltaram para mim, nem no estado nem no município. Em casa os cuidados continuam com a higienização, não recebendo visitas, saindo quando necessário e assim seguindo a vida. Meu trabalho como enfermeiro de uma ESF é árduo, mas gratificante. Temos uma comunidade para cuidar, realizando consultas, acompanhamento domiciliares para esses pacientes de Covid-19.  Me dedicando ao máximo para manter a saúde dos meus pacientes bem. Trabalho com uma equipe muito boa: médicos, técnicos de enfermagem, agentes comunitários de saúde entre outros profissionais. Agradeço o apoio dado pela secretária de saúde, Karen Cinthia, minha coordenadora da Atenção Básica, Laís Amélia, e ao Prefeito Antônio França. No hospital de campanha sou enfermeiro do setor de observação, onde luto contra essa doença nos plantões, cuidando dos pacientes ali internados e a cada alta me sinto feliz.

OP: Quando sentiu os primeiro sintomas? Quais?

BM: Por mais que tomemos precauções e cuidados em todos os atendimentos prestados aos pacientes contaminados com Covid-19, há riscos de contrairmos, pois somos da linha de frente. Comigo não foi diferente. Acabei pegando o vírus, apresentando os primeiros sintomas no dia 26 de junho, quando comecei a sentir minha garganta inflamada, tosse seca, dores na região lombar, febre, muita dor de cabeça, diarreia. No dia 30 de junho perdi meu olfato e meu paladar. Foi desesperador, mas tentei manter a calma. Fui ao médico e comecei a tomar as medicações do protocolo do Ministério da Saúde.

OP: Que memórias você traz da internação? Em algum momento temeu a morte?

BM: No dia 27 de junho realizei uma tomografia, onde meu pulmão estava totalmente limpo. Como os sintomas estavam se agravando rápido, resolvi ir ao médico mais uma vez. Depois de uma semana, no dia 04 julho, passei mal e logo fui encaminhado para o hospital. A tomografia mostrava um grande comprometimento pulmonar, entre 25% a 50%. Me desesperei totalmente, mas me mantive firme no tratamento em casa. Quando foi na madrugada de 05 de julho tive o pior dos sintomas da Covid, a dispneia (falta de ar). Fui regulado para o hospital de campanha em Pedreiras, meu reduto de trabalho (risos) no dia seguinte. Continuava ali a minha luta. O primeiro dia foi o pior. Cheguei ao hospital dispneico, indo para o oxigênio. Febre e calafrios, o psicológico a mil. Fiquei no oxigênio mais dois dias. Foram os momentos mais difíceis e horríveis que passei ali. Fui melhorando, tomando antibióticos e outros medicamentos prescritos pelos excelentes médicos que ali trabalham. Para ser sincero, em nenhum momento temi a morte, porque tinha a plena certeza que Deus estava comigo naquele tratamento. Recebi força da minha família, amigos, colegas profissionais da Secretaria de Saúde e do hospital de campanha. Força também do meu companheiro de leito, Daniel Berge. Vencemos juntos a Covid-19. Estou me recuperando em casa e logo estaremos, de novo, na linha de frente, pois existem pacientes que precisam do nosso trabalho e faço isso com muito amor. Amo a enfermagem e cuidar dos meus pacientes.

Bruno Henrique Porto de Melo e seu companheiro de leito, Daniel Berge (Foto: Bruno Melo)

OP: No vídeo divulgado nas redes sociais é visível sua emoção na saída do Hospital de Campanha Dr. Kleber Carvalho Branco. O que se passava na sua mente naquele momento?

BM: Estava muito tempo sem ver meus pais e alguns dias sem ver minha linda esposa. Recebi alta no dia 22 de julho, dia do meu aniversário. Juntou tudo em um momento emocionante que não consegui conter as lágrimas. Uma junção de saudades deles, alegria de estar recuperado, estar recebendo alta no meu aniversário e a alegria maior de saber que Deus esteve comigo naqueles 17 dias de internação.

Alta médica de Bruno Henrique Porto de Melo (Imagens: arquivo da família)


OP: Qual a dinâmica do seu tratamento?

BM: Hoje estou me tratando em casa com caminhadas e atividades respiratórias passada pelas fisioterapeuta. Melhorando gradativamente, louco para voltar a trabalhar (risos).

OP: Um debate se desdobrou em paralelo à pandemia, sobre o uso da “Hidroxicloroquina”, remédio cuja eficácia contra a Covid-19 não foi cientificamente comprovada. Fez uso desse medicamento?

BM: Não cheguei a fazer o uso da hidroxicloroquina. Em relação ao uso dessa medicação sou curto e grosso (risos). Particularmente, dependendo do caso, sou a favor sim do uso, com um detalhe: que o profissional médico solicite um eletrocardiograma e verifique o quadro clínico do paciente, se é necessário ou não o uso.

OP: O pior já passou ou as aglomerações vistas em várias partes da cidade ignoram a presença, em alguns casos mortal, da Covid-19?

BM: Creio que amenizou, mas não acabou, como muitas pessoas pensam. As aglomerações, claro, geram um aumento de casos, isso é óbvio. Muitos casos vão serão de paciente graves, mas por outro lado, se observamos, existem muitos pais de família que sobrevivem do pouco que vendem em uma banca ou em lojinhas. Concordo com a reabertura do comércio. Agora, a população que tem que se conscientizar. Sair de casa só se realmente for necessário e se prevenir com uso de máscaras, álcool em gel, entre outros.

OP: Nesse momento muitas pessoas estão no hospital de campanha em Pedreiras lutando pela vida, enquanto boa parte da população cada vez mais deixa de lado o distanciamento social, que nesse momento é a melhor forma evitar-se uma tragédia maior. Que lições esse cenário te traz? Acredita que tudo isso resultará numa sociedade melhor?

BM: Creio que respondi acima. O distanciamento social é fundamental, mas a maioria da população não se conscientiza. Hoje, se andamos pelas ruas, não só aqui na nossa região, mas em todo lugar, veremos muitas pessoas sem máscaras, sem o menor cuidado de prevenção. Isso pode piorar a situação. Se a população se conscientizasse, saísse quando necessário, usasse as proteções necessárias e mesmo na rua, respeitasse o distanciamento, isso seria diferente, mas não é isso que a gente observa.

OP: É possível falarmos em Bruno pós-pandemia? O que muda em relação ao que você era antes de testado positivo? Está animado para voltar à linha de frente?

BM: Estou animado demais. Passei por isso, mas existem muitos pacientes que ainda estão nessa situação, que necessitam de mim como profissional da saúde. Não vejo a hora de voltar para meus trabalhos. Falar de Bruno pós-pandemia é falar de alegria, agradecimento, primeiramente a Deus, depois minha família e todos os que tiraram um momento para mandar uma mensagem de apoio, carinho e torcida. Agradecimento aos profissionais do hospital em que trabalho, desde o diretor geral até a equipe da portaria. O diretor geral Ivan e os coordenadores de enfermagem Ozino, Valdete e Estênio. Vou me dedicar mais ainda aos pacientes, lutando para ver a melhora de cada um. Muda a questão de sentimento, amor pelo próximo que já tinha, mas aumenta. Vejo a importância do profissional de saúde em tempos de Covid-19. É incrível! Do outro lado, como paciente, observei que é essencial. Por isso muitos não recuam.

OP: Que lição a enfermagem deixará para o mundo pós-pandemia? Imagina sua profissão sendo mais valorizada?

BM: O apoio, a forma de lidar, dedicar-se a um paciente. É aquela questão da união do profissional da saúde com a família. A enfermagem é a arte do cuidar. Lição social já traz há muito tempo, mesmo antes da pandemia. Vemos que o enfermeiro, dentro de qualquer unidade de saúde, segue uma linha muito forte: cuidar do paciente, não só dentro do ambiente hospitalar. Seu trabalho é de suma importância para uma sociedade melhor, junto com uma equipe de profissionais que se dedicam aos pacientes. União, força, determinação e amor pela vida do próximo. Creio que será valorizada pós-pandemia. É o que a gente espera, que as autoridades olhem com bons olhos, até porque somos linha de frente e colocamos nossas vidas em risco para salvar a vida dos outros. A vitória chegou! 

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Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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