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domingo, abril 14, 2024

Como não homenagear uma mulher, no dia 08 de março, ou para que serve o feminismo

Na semana em que se comemorou o dia internacional da mulher o Brasil bateu por duas vezes, o recorde de mortes por Covid-19 em 24 horas.

Segundo consórcio de veículos de imprensa, já são mais de 11 milhões 277 mil 717 casos confirmados e 272 mil e 889 mortes pela doença. Não estão incluídos nestes dados as mortes de outros tantos brasileiros, que diante do colapso dos hospitais públicos e privados, lotados com casos de Covid-19, não tiveram condições de atender a contento outras enfermidades.

A doença, ao contrário do que alguns preferem divulgar, não é democrática, a pandemia tem incidência diferente nos diversos segmentos da sociedade, que podem estar mais ou menos expostos. O isolamento, para muitos não é uma opção, pois ainda que estejam em casa, as condições sociais e ambientais a que estão submetidos têm mais impacto na mortalidade e no contágio da doença. Os indicadores sociais das populações negra e indígena demonstram que estas estão em situação de desvantagem e vulnerabilidade social em relação à população branca.

A prova, a História nos dá:

O primeiro caso de covid-19 registrado no Brasil ocorreu em 26 de fevereiro de 2020 e se tratava de um homem, branco, 61 anos, que havia dado entrada no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, com histórico de viagem para a Itália. 

Já a primeira morte registrada da doença ocorreu em 12 de março, a vítima foi uma mulher, negra, de 57 anos, empregada doméstica. Ela foi internada, um dia antes, no Hospital Municipal Doutor Carmino Cariccio, na Zona Leste de São Paulo.

Ora, como não comparar essas realidades? Como explicar que um vírus altamente contagioso, mas que hipoteticamente têm taxa de recuperação alta, desde que tratado a tempo e com a estrutura médica necessária, ocasione tantas mortes?

Como explicar, por exemplo, que entre os profissionais da saúde, que estão na linha de frente, são as mulheres negras as mais impactadas pela pandemia? Falo da base do sistema de saúde, das inúmeras técnicas de enfermagens ou agentes comunitárias de saúde, que são profissões menos valorizadas e com menor nível educacional. Por isso, elas estão mais expostas ao risco do contágio, recebem menos treinamento, orientação e equipamento de proteção. Não foi à toa que a primeira pessoa a ser vacinada no Brasil, não por uma iniciativa do ministério da saúde e do governo federal convém destacar, tenha sido de uma mulher negra, a enfermeira Mônica Calazans.

A pandemia exacerbou uma desigualdade estrutural que já existia. E eu gostaria de frisar: A pandemia não é igual para homens e mulheres.

Ela joga diariamente os problemas de gênero em nossa cara! Foram as mulheres que mais deixaram seus empregos, segundo os dados do Datafolha, da Semprevida organização Feminista, CineMaterna e da Gênero e Números. A atual taxa de mulheres no mercado de trabalho é a menor dos últimos 30 anos. Metade das mulheres brasileiras passou a cuidar de alguém na pandemia. Trinta e seis por cento (36%) das mães deixaram de procurar emprego durante a crise, 16% das mães empregadas aceitam trocar de emprego para um menos demandante, mesmo pagando menos, para cuidar dos filhos, só 9% dos homens consideram essa opção.

São inúmeras mulheres, especialmente as mais pobres, chefes de família e com filhos, que foram afetadas de diversas maneiras desde a perda da renda, falta de creches e escolas, impossibilidade de adotar medidas de distanciamento social, dificuldades em conciliar o cuidado com os filhos e o trabalho remoto e é claro, o aumento da violência doméstica.

Os números mostram o aumento exponencial no número de feminicídios e casos de violência contra mulher, isso apenas do que foi notificado…

Quantos homens não devem estar usando a necessidade do isolamento para enclausurar e abusar, mais ainda, de suas companheiras, filhas ou até mães? Quantas mulheres não estão, nesse exato momento, sendo violentadas, espancadas e não sabem ou não conseguem pedir ajuda?

O aumento do tempo de convivência entre as vítimas e agressores, agravaram os abusos de violência já pré-existentes, além disso, a pandemia levou à suspensão de diversos serviços prestados por instituições de acolhimento às vítimas de violência doméstica, ou até mesmo ao distanciamento das redes de apoio de familiares e amigos. Mas os números… ah os números eles não são capazes de sensibilizar o atual governo federal, que no dia 08 de março, se negou a assinar, na ONU, a Declaração do Conselho de Direitos Humanos que assume compromissos na defesa da saúde da mulher. Foram signatários desta declaração mais de 60 países. O Brasil não foi um deles…

A mensagem é clara: A atual política brasileira não pensa na mulher! Ela não é para mulher! E esta mensagem só é mais ainda reforçada quando, ainda no dia internacional da mulher, vemos uma vereadora eleita democraticamente sendo agredida verbal e psicologicamente em plena sessão da Câmara dos Vereadores de Vitória, no Espírito Santo.

A vereadora Camila Valadão (PSOL), ocupavam lugar de destaque na Mesa Diretora, em decorrência do dia 08 de março, mas isto não impediu de ter sua roupa questionada, por um vereador que a acusou de falta de decoro, por estar com um ombro a mostra. Seria talvez, o dito vereador, mais um daqueles que acreditam que a roupa que uma mulher usa é justificativa para ela ser estuprada? Ou talvez, o mesmo vereador seja um apoiador de um outro político, outrora inominável, que afirmou que não estupraria a colega parlamentar porque ela não merecia.

A vereadora Camila ainda teve sua fala questionada, novamente por outro vereador, pelo uso do termo todes. O vereador em questão afirmou que não existe “todes” na gramática. Mal sabe ele que a língua é dinâmica e mais importante que a gramática é o respeito a diversidade, que ao que parece o vereador não tem. E por uma terceira vez a vereadora é agredida, mas por quem hipoteticamente a defendia, afirmando que ela estava linda com sua roupa e cabelos cacheados e “com todo respeito ao marido dela” ele a chamava de linda… isso mesmo com todo respeito ao marido! Não a ela…

A violência política de gênero é uma realidade e este caso, que ganhou as redes sociais, infelizmente só ilustra os inúmeros abusos que mulheres em posições de poder sofrem diariamente. Mas o habitual não pode ser naturalizado, é preciso lutar contra essa cultura machista, patriarcalista que humilha, oprime e subjuga.

É preciso lutar por uma educação antimachista e antirracista,

Precisamos nos levantar mais, falar mais e gritar mais se preciso for. E ainda que sejamos chamadas de histéricas, loucas ou vadias, ainda sim precisamos continuar em frente. Há uma razão para isso!

Precisamos de um governo que olhe pelas mulheres de nosso país, não de forma romântica, mas de forma política! Não de forma hipócrita, filiando-se ao “partido da mulher brasileira” e comemorando que meninos vestem azul e meninas vestem rosa.

Precisamos de um governo progressista, antimachista, antirracista e defensor da vida e da dignidade humana e para isso precisamos mudar o atual governo!   

Usando as palavras da professora do IFMA Katiuscia Pinheiro (2020):

“Não é possível que não se compreenda que todas as pautas, dimensões e abordagens genocidas do atual governo não estejam ligadas, alinhadas ao sistema patriarcal de gerenciar e pensar o mundo. É necessário que a esquerda entenda isso, é necessário que todos abordem isso. É necessário que todos olhem com atenção que isso não se trata de cortina de fumaça, o modis operante torturador desse presidente é o mesmo modis operante de tantos homens tóxicos que invadem e dilaceram nossas vidas e nossa saúde mental. Nós mulheres já conhecíamos esse modis operante por que já lutamos contra ele em nosso cotidiano, nas afrontas que sofremos de nossos companheiros, dos assédios de nossos chefes e de tantas outras situações. Nos espantamos sim, mas já conhecíamos esse tipo de sistema torturador que esse governo impõe e não é possível derrubá-lo sem derrubar seu ideário sedutor de um convite para se voltar há um tempo em que mulheres eram escravizadas, em que não podiam expressar suas vontades.”

Ouso dizer que o ressentimento de tantos homens que se viram perdidos em meio ao fim de seus privilégios e ocupação de espaços, outrora exclusivamente masculinos, por mulheres durante os governos anteriores, seja um dos principais pilares de sustentação ideológica do atual governo machista.

Simone Beauvoir já nos falava que “Basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”. Por isso o feminismo é tão necessário!

E a despeitos das vozes masculinas que nos desdenham, nos acusando de um “politicamente correto”, (como se isso fosse uma cruel ofensa), culpabilizando-nos de  “inventamos” termos como machismo, masculinidade toxica, antifascista, inclusão, meu corpo minhas regras… continuaremos na luta, pois tais termos não foram inventados por nós, eles apenas emergiram e foram desmascarados por mulheres que não se limitaram, que não temeram, que não aceitaram caladas a ordem preconceituosa e excludente do patriarcado.

Mas a razão é simples: estes homens, que menosprezam e inferiorizam o feminismo, têm medo de uma inversão de poder e estarem no mesmo patamar de inferiorização que eles lançam às mulheres.

Mas o feminismo não é isso! Ao contrário do machismo, não queremos subjugar um gênero sob ao outro, queremos equidade, caminhar lado a lado mulheres e homens por um mundo mais digno a todos, todas e todes!

É por isso que nossa luta é tão necessária! e ainda que não possamos encher as ruas, devido a este contexto pandêmico. Espalhamos nossas vozes pelo Brasil inteiro, através de plataformas virtuais, redes sociais e no também no corpo a corpo com quem estamos mais próximos durante a quarentena.

Continuamos desenvolvemos nossas lutas de todas as formas, porque sabemos nós, feministas e mulheres espalhadas pelo mundo inteiro, que sem as nossas lutas não poderá existe um mundo melhor.

É por isso que continuamos, não sem dor, não sem lágrimas, não sem perguntar: “quem mandou matar Marielle?”

Por Nila Michele Bastos Santos, Historiadora, Psicopedagoga, Especialista em Formação de Professores. Mestra em História Social pela Universidade Federal do Maranhão. Doutoranda em História pela Universidade Estadual do Maranhão.  Professora do Instituto Federal do Maranhão IFMA – Campus Pedreiras. Coordenadora Geraldo NEABI – IFMA / Campus Pedreiras e do LEGIP – Laboratório de estudos em Gênero do Campus Pedreiras. Instagram: @nilamichele

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1 COMENTÁRIO

  1. Que possamos dar eco às vozes umas das outras!! É urgente a necessidade de uma mobilização nossa! Concreta, ainda que virtual! Estamos juntas, Mila! Obrigada pelo texto!

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