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quarta-feira, julho 17, 2024

Cinema Negro brasileiro: espaço de representatividade

O começo da produção cinematográfica no Brasil coincide com a marginalização da população negra após a abolição da escravatura, sendo assim, o cinema terá seu papel de representar as ideologias das forças dominantes na recente, “liberal” e racista república dos primeiros anos do século XX. Englobando valores simbólicos e imaginários, as produções fílmicas dizem respeito à uma sociedade específica, por isso, é um produto com uma intencionalidade a ser alcançada, portanto, faz parte da ordem econômica, estética, tecnológica, perceptiva e simbólica. Nesse aspecto, os filmes brasileiros sempre venderam a imagem do Brasil como o “paraíso racial”, tal relação seria amistosa da mestiçagem, dessa forma, erradicando a noção de que o meio cinematográfico de comunicação valoriza a população negra e seu país.

Todavia, o que acontece é bem distante disso, sabe-se que a história do negro brasileiro é uma experiência, extremamente, sofrida com marcas da escravidão e em seguida com o preconceito racial, colocando esse povo em constante estado de luta contra a violência, segregação, racismo e desigualdade social, como também a persistência de um espaço de valorização étnica e social. No âmbito interno, este espaço promove a segregação e mantém o prestígio, exclusivamente, dos brancos, enquanto para população negra fica a produção de estereótipos relacionados à sua cor.

Esse ambiente de poder, sob domínio de brancos, serve para alimentar a estrutura do racismo na sociedade brasileira. O racismo e a discriminação racial no Brasil são tratados como casos isolados, apesar do inegável esforço dos movimentos sociais, a discriminação racial e de gênero são realidades latentes na sociedade brasileira.  Em um país cujo as mulheres precisam de lei para serem inclusas em cargos de liderança se percebe o alto nivelamento da diferenciação de gênero.

Esse cenário é ainda mais evidente quando nos deparamos com mulheres nos cargos de prestígio no mercado de trabalho. Diante da questão racial, as mulheres negras estão entre as mais afetadas na escala das desigualdades existentes no Brasil. Infelizmente, a indústria cinematográfica brasileira é protagonizada por homens brancos, segundo constatou uma pesquisa realizada em 2016 pela Agência Nacional do Cinema (ANCINE), tendo como base 142 longas-metragens lançados em 2016 mostrou que foram dos homens brancos 75%  a direção destas produções, tendo como ponto de partida o cargo de mais prestígio nas películas. As mulheres brancas assinaram a direção de 19,7% deste número, enquanto homens negros apenas 2,1% e nenhum filme foi dirigido por mulheres negras em 2016.

Dessa forma, a proposta do gênero, movimento ou estilo Cinema Negro é um mecanismo para discutir caminhos que desmitifiquem a população negra nas produções fílmicas brasileiras, assim, a sétima arte apresenta-se como um dos principais meios de representação e pode se tornar um aliado na luta contra o preconceito étnico e de cor. 

A necessidade do emergente estilo cinematográfico provém da ausência de representatividade para a população negra incorporado em toda a história do cinema nacional. o Cinema Negro se formou pela luta antirracista de grandes cineastas, como Jeferson De e Joel Zito Araújo. Como aponta o teórico Noel dos Santos Carvalho, “os realizadores negros que hoje pautam uma nova imagem do negro e por extensão do Brasil, certamente trazem o acúmulo das reflexões precedentes e apontam para novas formas de entendermos e transformarmos nossa realidade, o País e cada um de nós mesmos”.

No ano 2000, foi apresentado o manifesto Gênese do Cinema Brasileiro ou Dogma Feijoada, que é fruto da pesquisa do cineasta Jefesrson De e difunde mandamentos ou regras que classificam o cinema negro. São elas: 1) O filme tem que ser dirigido por um realizador negro; 2) O protagonista deve ser negro; 3) A temática do filme tem que estar relacionada a cultura negra brasileira; 4) O filme tem que ter um cronograma exequível; 5) Personagens negros estereotipados estão proibidos; 6) O roteiro deverá privilegiar o negro comum brasileiro; 7) Super-heróis ou bandidos deverão ser evitados.

Com o passar dos anos, o mercado audiovisual vem apresentando uma notável mudança, trazendo mais diversidade e representatividade, porém, ainda é pouco, visto da perspectiva de amplas oportunidades que o mesmo pode oferecer. A importância da representatividade negra no espaço cinematográfico é crucial, a partir do momento em que garotos e garotas negras assistem um filme no cinema ou na televisão e não vêm uma representação sua como médicos, advogados, policiais, etc. seja no meio cinematográfico ou não, o povo negro é, raramente, representado.

Dessa maneira, o Cinema Negro brasileiro propõe a inclusão e reconhecimento de profissionais negros na realização de produções audiovisuais, integrando o tratamento da identidade negra como sua marca. Esse discurso teórico tem a intenção de extinguir as imagens errôneas, estereotipadas e exclusão de homens e mulheres negros (as) provenientes do racismo estruturado há muito tempo nas sociedades. Antes de ser uma forma de representação, suas produções são frutos de décadas de luta e resistência de profissionais NEGRAS e NEGROS.

SUGESTÕES DE FILMES:

Correndo atrás (Jeferson De, 2018)

Kbela (Yasmin Thayná, 2015)

Lápis de Cor (Larissa Fulana de Tal, 2014)

O papel e o mar (Luís Antônio Pilar, 2010)

Por Thaís da Silva Portela – Historiadora pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA- Campos Caxias)

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