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Pedreiras
quarta-feira, julho 17, 2024

As últimas horas da Pizzaria Beira Rio

CRÔNICA


O sol vai descendo sem pressa. Não tão diferente, as águas do Rio Mearim seguem sua sina. Os pardais barulhentos, feito coral, fazem da grande árvore catedral, e na ponte o vai e vem de todo fim de tarde. No dia seguinte, o sol, o rio, os pardais e a ponte estarão ali, mais uma vez. Exceto se o mundo acabar. Quem estará se assim for? Mas não é o fim do mundo que preocupa a garçonete Geovana Sousa Mendes. Aos 18 anos, o que lhe faz matutar é a incerteza do dia seguinte. É ela, diarista, que abre o portão da Pizzaria Beira Rio pela última vez. A placa de “vende-se” explica o motivo, mas não todos.

“Não! Eu tô pensando ainda”, diz ela, enquanto posiciona as mesas, ao ser indagada sobre o que fará no dia seguinte. “Desde segunda-feira eu tô pensando nisso”, acrescenta. Com ênfase verbaliza o gosto pelo trabalho. Em um ambiente de incertezas, agradece por não ter filhos. “Será se semana que vem vou ter onde trabalhar? ”, autoquestiona, ciente de que o mercado de trabalho, local, anda fazendo careta. Recolher o lixo, estender a toalha xadrez nas mesas são certezas que findam com o fim da Pizzaria Beira Rio.


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Fotos: Joaquim Cantanhêde

O cearense, quase quarentão, Ricardo Freitas, pizzaiolo dono da “Beira Rio”, sabe para onde vai no dia seguinte. Me diz que é Sorriso, no Mato Grosso do Sul, tida como a capital do “agro é pop”. Em 2009, apostou sua fixas, juntamente com a esposa, natural de Joselândia, fazendo do espaço – até então Hotel São Francisco– no que por 13 anos ficou conhecida como Pizzaria Beira Rio, movimentando a Rua do Tamarindo, em Trizidela do Vale, Maranhão.
 
“Eu fiz de tudo cara, tudo o que pude para não fechar e ter que ir embora, porque o carinho do povo aqui é muito grande. Infelizmente não vai dá, a gente vai ter que fechar mesmo”, explica Ricardo. O anuncio do fechamento fora feito via rede social. “Pizzaria Beira Rio encerra suas atividades nesta quinta-feira (12/05/2022)”.

“E minhas esfirras preferidas, onde vou poder comer agora?”, questiona uma cliente na publicação.

A “Beira Rio” também se despede de Francisco das Chagas (23), entregador. Não faz muito tempo desde que trocou a oficina pela pizzaria. Agora, semelhante a Geovana, lhe caberá buscar outras oportunidades. “Bola pra frente” diz ele. A renda obtida com o trabalho de entregas, intensificado com os pedidos em formato digital, “ajuda um bocado”.


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Fotos: Joaquim Cantanhêde

Nem todo mundo que entra na pizzaria trabalha nela ou vai querer umas fatias. Com o espaço à venda, o “quanto custa? ” é sobre uma das mobilhas. Boa parte delas de madeira, por sinal bem conservadas. Ricardo, incialmente vai deixar tudo. A marca “Beira Rio” está à venda. Havendo propostas convincentes, logo, cardápio e até as redes sociais poderão ser repassadas, segundo ele, para manter a história da pizzaria. As propostas, até aqui, não o agradaram.

“A pizzaria vai ficar fechada. O maquinário estará todinho aqui. Se ninguém comprar vou mandar buscar, para abrir outra lá no Mato Grosso”.

O comprador vai herdar também a bela vista que se tem de quem observa o lá fora da pizzaria. A torre do Santuário de São Benedito, em Pedreiras, parece brotar das árvores que espreitam o Mearim, cujo uma das margens vira campinho. Nessa altura do campeonato já não é o sol que “alumia” Geovana. Ela não para por um minuto. No quesito correria só perde para as crianças que enfeitam a rua. Minutos depois, pela boca de dona Francisca Moreia, vulgo Chiquinha, saberia o nome delas: Emily, Maria e Enzo, que na espontaneidade típica de sua idade, parecia me conhecer há anos. Comunicador todo. Pela estampa da camisa, parece gostar de “Jurassic Park”.

“Amanhã Ricardo vai longe. Acho que é amanhã”, diz ela, enquanto adula Pepeta, uma gata que não lhe sai do pé. Lamenta o fechamento da pizzaria e torce para que quem for comprar o espaço, mantenha o estabelecimento que lhe traz alegria. Teme que com a ausência seja obrigada a fechar as portas de sua residência mais cedo.

Pela última vez, Luís Fernando (26) e Amanda Carvalho se sentam à mesa a espera daquela pizza de três sabores: Barcelona, baiana e beira rio. Foi ali que o consultor de vendas e a vendedora, primeiros clientes da noite, se conheceram. Foram despedir-se juntos, afinal, na hora da paquera o lugar ajudou.

“A gente vem aqui há oito anos. A ‘Beira Rio’ fez parte de toda nossa história. Tem um sabor diferente na pizza. É como se tivesse um tempero especial, próprio deles. Pode mudar o rapaz que faz a pizza, mas eles têm um jeito, um amor e não apenas fazer por fazer”, explica Luís, após ter seu pedido concluído. Elogia o atendimento, os agrados que recebeu como cliente. Sua fala traz convicção. Ficarão órfãos deste lugar. “Agora só hambúrguer”, diz Amanda.


Luís Fernando (26) e Amanda Carvalho, se conheceram, há oito anos, na Pizzaria Beira Rio (Foto: Joaquim Cantanhêde

Nessa altura do campeonato já perdi as contas do entra e sai de Geovana, do número de comandas usadas e da quantidade de entregas feitas por Francisco das Chagas. Nesses tempos vorazes de tanta criminalidade, fazer o que ele faz requer coragem e confiança dos clientes.

A violência é um dos motivos postos nos argumentos de Ricardo para o fechamento da pizzaria, mas não é o único e o principal, segundo ele: “Fechamento das empresas ao longo desta pandemia dificultou, um pouco, o trabalho da gente. Aí vimos que não temos mais condições de continuar. A economia aqui está meio difícil e quem tem funcionário e família para sustentar precisa vender. Com as vendas em queda vimos que não temos condições de continuar”, lamenta.

Sobre a criminalidade Ricardo explica que três motos úteis à pizzaria teriam sido roubadas e posteriormente recuperadas, explica, “graças ao trabalho esplêndido da Polícia Militar e Civil”. Roubos de celular e assalto também fizeram parte do cotidiano, resultando na perda de clientes. Soma-se a isso o estereótipo que relaciona a Rua do Tamarindo à criminalidade. Promoções e táticas diversas não surtiram o efeito esperado.

“Atenção para a promoção! Cliente que tiver porte e posse de arma liberado pelo Exército ou pela Polícia Federal e, que esteja em dia, apresentando carteira que comprove porte ou posse e também a arma, terá direito a 30% de desconto”, diz texto estampado em um banner, pendurado num dos cômodos.

No mais aquecido deles, Ricardo prepara a massa, no processo chamado de poleamento, quando ela é pesada, tendo a aparência de um bolinho, mas por pouco tempo. Adicionado o queijo mussarela, calabresa, bacon, milho verde e os segredos da casa, passa pelo “sagrado” rito do forno à lenha e só depois é servida por Geovana.


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Fotos: Joaquim Cantanhêde

Os últimos clientes da noite percorreram alguns quilômetros de estrada, vindos de Lima Campos. A chegada deles tratou de tardar um pouco mais o encerramento de expediente. Entre os cinco, Sidney Borges, publicitário, que se tornou cliente ao ser trazido por um pedreirense. De quebra, diz ele, sentiu o diferencial. “Não troquei por nenhuma outra. Sempre fui um cliente fiel”, destaca, frisando que só ali tem a sensação de saciedade. “Praticamente chorando de saudade, porque a pizza daqui vai fazer saudade”. 

Inúmeras vezes estive na “Beira Rio”, mas sempre como cliente. Como tantos outros em momentos felizes com a família e amigos. Numa dessas ocasiões conheci uma venezuelana. Não me lembro exatamente o ano, mas na época se agravava a crise no país vizinho. Nossos irmãos rumavam para várias partes do Brasil, buscando recomeço. Ela era uma das garçonetes da “Beira Rio” e ao nos atender, com seu espanhol marcante, deixara claro que sua nacionalidade era outra. Fascinado por histórias, deixei o lado cliente de lado e procurei estabelecer pontes para uma conversa posterior.

A jovem morava com a filha na casa de dona Chiquinha, que pelo visto não se lembrou da situação desagradável, mas infinitamente importante. Era tarde de um dia útil e as encontrei na calçada. A jovem arrumava as unhas. Era o tempo que deveria esperar, pensei, para conhecer a história dela. Como a gente diz por aqui, fui com “muita sede ao pote”. Esqueci que para aquela jovem garçonete eu também era desconhecido. Tirei a câmera da mochila e comecei a fotografá-las. Bastante irritada ela pediu que parasse. De imediato guardei a câmera e me pus a observá-la. Depois de uma longa espera e um sermão necessário, ela disse que não haveria conversa. Dos momentos vividos naquele lugar, este me marca até hoje, não mais doloroso como o fato em si, mas pelo saber obtido: as pessoas são donas de seus corpos e um fotojornalista precisa, de forma sacerdotal, respeitar isso. Nunca mais a vi, nem sei o que a levou daqui, mas sei o que deixou, pelo menos para mim.

Sem mais delongas, uma verdade precisa ser dita: na Tamarindo, as noites não mais acabarão em pizza, pelo menos, por um tempo.

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Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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