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quinta-feira, julho 18, 2024

Antônia Frazão: no quintal de seu encantamento

CRÔNICA


Não são poucas as plantas no quintal de dona Antônia Frazão. Um mero visitante, ao não mais avistá-la, poderá supor que tenha se perdido. O tempo de convivência já me permite outra conclusão. Seus pés, de tantas idas e vindas, reconhece cada palmo de vereda. Sua sabedoria popular chama cada uma pelo nome. A relação beira à maternidade.

O portãozinho de ferro é a fronteira. Passagem dos gatos, limite para os jabutis que, diz ela, estão à venda. “Cinquenta reais. Quero é me livrar”, explica essa senhora de cabelos brancos tão literais.

Mas o quintal de dona Antônia é sagrado demais para qualquer um, para qualquer olho, para qualquer mão. A planta morta, depois de olhada e tocada, denuncia o tipo de gente, de quem ela quer distância. Sabe aquele mau-olhado? É do portão para fora.

Não me recordo da primeira vez em que passei da sala vigiada pelos gatos, um deles chamado de Foguinho. Toda vez que a visito, após um cafezinho na clássica xícara amarela, me embrenho no quintal. Devo ser uma boa pessoa, afinal, toco, olho e as plantas continuam vivas.  Entre elas os jabutis aproveitam aquele ‘jardim do Éden’, e a semelhança de Adão e Eva ignoram a ameaça de despejo.

Tão numerosas quanto as folhas e flores, são as histórias que dona Antônia me conta. Por vezes brinco, substituindo seu sobrenome por outros. Antônia Campelo, Antônia Virgulino e por aí vai. Antônia Malaquias é o que ela mais detesta, contesta de cara. Sem fartos detalhes, dá a entender ser este o nome de um personagem real de uma história antiga. Aí tem, eu sei! Mas tal qual os jabutis, é preciso respeitar os limites. É o que faço, mas me esbaldo no que ela me permite adentrar. “Seu Joaquim”, assim me chama. “Vai caçar uma véia”, diz ela, quando por exemplo, tento lhe beijar as mãos. Para burlar sua relutância me fiz da família ao pedir-lhe a benção, coisa que ela não nega.

No fim das contas, mais do que o café, o jardim e as histórias, meu encantamento ressoa da autenticidade de dona Antônia, aquela que diz, sem firulas, que nunca mais pisou na “Matriz de São Benedito”. Perdeu a fé? Não é bem assim. Fé não é o que ela encontra, é o que leva. É dentro e não fora. Dona Antônia é a mescla de um respeito solene, um palavrão em dias agoniados e do não levar desaforo para casa. A vida é dura e não tão doce como as cocadas que ela faz. O mais aproximado foi aquele doce de jambo, que não é ruim, mas é estranho. Que ela não saiba disso.

Sorte teve meu pai, que quando vendia água mineral, em uma das entregas, ousou cheirar-lhe a cabeça. Eu, com a intimidade que tenho, no máximo passo a mão entre os fios brancos, por alguns segundos, até que ela retruque. Já Amália, chegou um dia desses e já tem da bisa toda a atenção do mundo. Nada mais justo. No fim das contas quem tem Antônia tem sorte: as plantas, os jabutis, os filhos, netos, bisnetos e gente, que mesmo sem laços biológicos, é como se fosse da família.

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Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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