21.2 C
Pedreiras
quinta-feira, julho 18, 2024

A tiktoker que perdeu os ovários e aos 18 anos enfrenta a menopausa

“Acordo e ao levantar sinto algo estourar”

Poucos metros separavam Julia Micaelly Ribeiro Carvalho da porta do quarto trancada por dentro. Seu corpo, em ebulição, tinha pressa e manifestava isso em uma dor demasiadamente torturante. Faltava-lhe ar e o choro não vinha. Gritar não adiantaria. Sua mãe, Elizania Ribeiro de Lima Carvalho, e irmão mais novo, com quem dividia o mesmo teto naquela noite, não conseguiriam lhe ter acesso. Até deixar a cama, abrir a porta e chegar ao outro quarto passaram-se 15 minutos. A julgar pelo que sentiu foi uma eternidade, a ponto de descrevê-la em forma de súplica. “Mãe me ajuda, estou com muita dor”.

Em casa o clima era de mudança. Ela veio da pior forma possível. O médico recém-formado Reginaldo de Carvalho Silva Junior, pai de Julia, estava em São Luís, lidando com burocracias para a obtenção do diploma. Com a filha a caminho de um hospital, teve que adiantar o retorno. Por um tempo lidaria com a estrada e com a incerteza sobre o que de fato estava acontecendo com ela.

No carro de uma vizinha e com o suporte de um amigo da família, Julia foi levada ao Hospital Municipal Antenor Abreu, em Pinheiro, inteiro do Maranhão. As horas se somavam e dor foi mais forte que as doses de morfina aplicadas. O analgésico é indicado no tratamento de dores intensas, sendo necessária prescrição médica.

“Isso daí não é cólica menstrual não”, teria indagado um médio. De pronto, suando frio, Julia argumentou: “Doutor, não é, nunca tive cólica desse jeito”.

As dores da filha, o desespero e dúvidas da mãe se depararam, no caminho do Sistema Único de Saúde (SUS), com falta de um aparelho ultrassom, que em tese poderia ofertar um diagnóstico mais preciso sobre o que estava acontecendo com o corpo de Julia. O acesso ao exame só foi possível quando buscaram um serviço de saúde privado.

“É Julia né? Meu amor, não estou vendo seu ovário esquerdo aqui”, disse a médica durante a realização do exame de ultrassom de abdômen total.  “Mas doutora, aonde é que ele tá”, indagou.

Tanto Julia quanto sua mãe, percebiam a gravidade refletida no semblante da médica. Segundo ela, um de seus ovários havia estourado, provocando uma hemorragia interna. Era caso de cirurgia.

O tempo seguinte foi de demasiada espera, entre apagões repentinos, chegada de seu pai e a transferência para uma unidade hospitalar estadual. “Meu pai mandando a foto do ultrassom, desesperado”, relembra Julia. “Na hora em que me viu começou a chorar. Sentiu que eu estava morrendo”.

Uma outra cadência

O corpo de Julia tem pressa. Os primeiros sinais se manifestaram quando tinha quatros anos. Odores, pelos e estatura, incomuns para aquela fase da vida, a levaram a um pediatra, que não viu anormalidade. “Pico hormonal”, teria sido o diagnóstico. O estranhamento da família de pessoas próximas, contudo, continuou.   

O parecer médico indicando puberdade precoce veio de um endocrinologista, aos 7 anos de idade. “Fiz o tratamento até os 11 anos”, explica Julia. “Deu certo. Ovário estava ok. Não tinha folículo. Tudo no tempo certinho. O pelos caíram. Aí fui devagar, no tempo que era para ser”, acrescenta. A primeira menstruação veio aos 12 anos.  Como tudo aparamente normal as consultas de rotina cessaram.

Nem o esquerdo, nem o direito

Passaram-se então quatro anos até que corpo de Julia, do estado de silêncio lhe impusesse um grito em forma de dor. “Pensei na minha família, na minha idade”, relata. Naquele domingo, por um momento, tratou de lembrar Deus o início do ano letivo no dia seguinte. Até que apagou.

“Olha aqui a situação do ovário dela”. Foram essas palavras que Julia escutara ao acordar já no centro cirúrgico. Eram parte do diálogo entre um médico e seu pai, que acompanhava o procedimento. “‘O direito também não tem salvação. Tira Reginaldo?’ Meu pai não respondeu”.

Na cabeça de Reginaldo a dúvida de como contar para a filha [que já sabia] e sua esposa sobre a perda dos dois ovários.

“Uma das piores memórias que tenho. A escutei (sua mãe) gritando de pavor, sabe? Se perguntando, por que comigo? Como? Chorava e gritava muito. Passou um filme em minha cabeça. ‘Meu Deus, estou viva, mas e agora?’. Tudo muito intenso”.

Segundo Julia, teria sido constatado que um cisto causara a perda das duas glândulas que integram o sistema reprodutor feminino. “Não faz muito sentido o meu útero ter sobrevivido àquela guerra, mas sobreviveu”, explica com certo ar de alívio. Uma parte de si ainda estava ali.

Julia tem nas mãos um celular que exibe uma fotografia sua dentro de uma ambulância (Foto: Joaquim Cantanhêde)

Os traumas se mantiveram nos dias seguintes e o acompanhamento psicológico foi fundamental. Se mentalmente tinha medo de morre, seu corpo, aos 16, passou a sentir os efeitos da menopausa precoce, confirmando um prognostico médico. “Um calor, uma agonia. É uma coisa interna, de dentro para fora. Tomar banho não passa. Essa coisa toda da menopausa é desesperador”, descreve Julia, que se submeteu ao tratamento com reposição hormonal.

“Sempre tive esse desejo de gerar, ter uma família, casar e ter filhos, e ter esse sonho interrompido do nada”. Naquele momento Julia não entendia a dimensão dos riscos e do porquê das escolhas tomadas em prol de sua vida. “Não tiraram (os ovários) a força. Iria morrer se deixassem”.

Aos 18 anos, residindo em Pedreiras, Julia tem em parte de sua rotina remédios que não podem, em hipótese alguma, ser esquecidos, as aulas no Instituto Federal do Maranhão (IFMA), campus Pedreiras e a produção de conteúdo para 40.300 seguidores no TikTok. A uma audiência, formado em grande parte por mulheres, fala sobre sua história e a partir dela toca em temas que atravessam tantas outras vidas. Com isso, argumenta, tem conseguido transformar seus traumas em ajuda.    

Julia Ribeiro (Foto: Joaquim Cantanhêde)

“Tive a ideia de gravar um TikTok, de uma trend (vídeos que ganham destaque). Era tipo, chegando no hospital, achando que não seria nada demais. Coloquei: ‘eu saindo com menos dois órgãos’. O vídeo viralizou, as pessoas começaram a me perguntar e quem já tinha passado por isso me indagava sobre como eu tinha superado, sobre minha reposição hormonal. Isso começou a me empolgar. Usar essa história para um lado positivo”, diz Julia. A escolha das temáticas abordadas parte das dúvidas que recebe. “ A gente vai se ajudando”.

Nem tudo, entretanto, é aceitação e engajamento. No virtual, a jovem tiktoker também recebe mensagens que são o puro suco de ódio. Mais cruéis, no sentido de relembrar seus piores momentos, que a cicatriz quase imperceptível.



“Foi difícil lidar com esses comentários, porque já estava mal aí a pessoa falar isso; me quebrou, entendeu? Depois de dois anos já lido melhor, consigo falar abertamente sobre”. Os amigos da escola, diz ela, saem em sua defesa.

Ser mãe ainda é um dos planos de Julia. Biologicamente não poderá gerar um filho com seu DNA. Sua mãe teve então a ideia de recorrer à Fertilização In Vitro (FIV), uma técnica de reprodução assistida na qual a fecundação do óvulo com o espermatozoide acontece em um laboratório. Os embriões que se formam, a partir daí, após cultivação e seleção, são transferidos para o útero. 

“Uma luta contra o tempo. Fui à São Luís, fiz uma bateria de exames e por fim me foram retirados oito óvulos em ótimo estado, maduros, no ponto da fecundação e fertilização. Pagamos a criogenia e estão lá congelados, até o momento em que ela for usá-los”, explica Elizania. “Um sonho dela de ser mãe e meu de ser avó”. Reconhece que um acompanhamento poderia ter evitado a perda dos ovários.

“Sei que meu momento vai chegar”

Com tantas marcas, em grande parte invisíveis, Julia segue sua vida. “Eu tô em menopausa, minha saúde não é boa, sou uma nova no corpo de uma idosa. Não sou uma menina normal” são detalhes que ela faz questão de deixar claro quando aparece alguém que não lhe quer apenas como amiga. Permanecer em sua vida inclui um pouco de bom senso e muita sensibilidade. Ela escolhe bem as amizades e não se dá bem com piadas. “Cuidado para não a engravidar”. É o tipo de coisa que já ouviu em companhia do namorado.

- Publicidade -spot_img
Colabore com o nosso trabalho via Pix: (99) 982111633spot_img
Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
- Publicidade -spot_img

Recentes

- Publicidade -spot_img

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Notícias relacionadas