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quarta-feira, julho 17, 2024

A Rita “desgramada” segundo os dados de feminicídio no Brasil

Aos que argumentam, “hoje em dia problematiza-se tudo”, de já adianto que o teor de problematização seguinte é alto, mas sem problemas, sempre considerei a liberdade uma mão de muitas vias.

Até um dia desses não conhecia a Rita, vulgo “desgramada”, da música que leva seu nome, composta e interpretada por Tierry e já conta com inúmeras versões no YouTube.  A ouvi pela primeira vez numa “resenha” com amigos, naquelas ocasiões em que a ideia é se divertir. A canção opta pela zona de conforto. Letra descomplicada, cheia de repetições fáceis de serem fixadas na cabeça dos ouvintes. “Rita, volta desgramada” soa foneticamente como o auge da música, o pico da dor de um cara que foi violentado, ou pode se dar outro termo para alguém que levou uma “facada”?

“Sua ausência tá fazendo mais estrago que a sua traição
Lê, lê, lê
Minha cama dobrou de tamanho
Sem você no meu colchão”

A canção não versa sobre amor. O sujeito que clama é um cara traído que denota saudade de Rita e para isso evoca um átrio de prazer. Das noites de “amor” só ficou a cama, grande demais para ele. Diante de tanta ausência, perdoar a traição e a facada passou a ser uma possibilidade cogitada. Dane-se a razão!

Se a história cantada foi real, não sei, mas a partir dela volto-me para a realidade e nela Rita, a desgramada, seria Rita a esfaqueada e por uma série de razões, aquela que retiraria a queixa das inúmeras violências sofridas. Cabe lembrar que esfaquear, quem quer que seja, é crime, e também é necessário destacar que no contexto dos relacionamentos conjugais, o feminicídio ocupa fatia considerável dos gráficos. Logo, a Rita desgramada é uma exceção. Os dados seguintes são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2020, feito “a partir da informações fornecidas pelas secretarias de segurança pública estaduais, pelo Tesouro Nacional, pelas polícias civis, militares e federal, entre outras fontes oficiais da Segurança Pública”.

O que dizem os dados?

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Infográfico: Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2020

Feminicídio

Registrou-se 1.326 casos de feminicídios no Brasil em 2019, um acréscimo de 7,1% em comparação à 2018. Dessa totalidade, 66,6% das mulheres eram negras, 56,2% tinham entre 20 e 39 anos, 89,9% foram mortas pelo companheiro ou ex-companheiro.

Violência sexual

O dados testificam que, em 2019, 66.123 casos de violência sexual foram registrados. Desse total, 57,9% das vítimas tinham no máximo 13 anos e 85,7% das vítimas foram do sexo feminino. Numa equivalência de 1 estupro a cada 8 minutos.

Violência doméstica

Foram registrados 266.310 casos de lesão corporal dolosa, isso representa 1 agressão a cada 2 minutos.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2020 entende que, “feminicídio decorre da violência doméstica é, em geral, o desfecho de uma série de outras violências já experimentadas no âmbito da relação afetiva, mas que muitas vezes a mulher não denúncia”.

Rita desgraçada é uma exceção e na vida real as idas vindas terminam em morte. Em Pedreiras o caso Maria Nilde é um dos muitos e infelizes exemplos que podem ser citados. Ela, ex-mulher do não conformado Antônio Carlos da Conceição, foi por duas vezes sequestrada por ele, na última não saiu da casa que fora feito cárcere com vida.

Mas

Denunciar é o caminho, mas para as mulheres violentadas o percurso até a delegacia é repleto de dúvidas, receios e medo, muito medo. Muitas, por conta das variantes e riscos, optam por não denunciar.

“Primeiramente tem a questão financeira, quando dependem financeiramente dos maridos sempre há aquela questão: como é que vou fazer para viver? Se denunciar como vou ficar? Há a própria questão afetiva e quando falo disso não estou dizendo que há amor envolvido, mas há uma dependência emotiva. A própria relação afetiva desse homem abusador com esta mulher cria-se uma dependência quase que patológica, pois há diversos medos que ela começará a desenvolver, desde o medo de ficar sozinha ao medo de ser morta. O abuso, tanto físico, quanto o psicológico, traz marcas indeléveis nessa mulher. A própria questão cultural da nossa sociedade, que historicamente não pune o agressor. O momento em que você o denúncia, ele não é preso imediatamente, as vezes vai só prestar depoimento, depois volta. Não é afastado da casa, ao não ser quando há uma medida cautelar. Há todo um processo de descredito do governo, da polícia, sobre a denúncia.  

Vou colocar mais um ponto: a sociedade que vai julgar essa mulher que denunciou. E quando falo de sociedade, não falo de forma ampla. Estou falando do ciclo social a que essa mulher pertence. Esse homem tem família também, uma mãe, pai, amigos e quando chega ao ponto dele ser preso ou intimado, será jogado nas costas dessa mulher a culpa. Sempre há aquele ciclo social mais próximo, a qual o casal pertence que desacredita desta mulher.

Algumas mulheres com filhos… O pai do seu filho preso (isso quando é preso, deixemos isso claro). Essa série de fatores impede a mulher de denunciar. Aquelas que retiram a denúncia também por esses motivos afetivos. Ele diz que vai mudar e normalmente não muda, porque o perfil de um abusador é esse. Ele é um mentiroso, mas aí esse mulher envolvida, fragilizada afetivamente, acredita nesse homem, na esperança de manter uma família”, explica a professora Nila Michele Bastos Santos, Doutoranda em História pela Universidade Estadual do Maranhão.  Professora do Instituto Federal do Maranhão (IFMA) – Campus Pedreiras.

Ela destaca o processo de “criar representatividades”. Raros são os exemplos e pouca visibilidade é dada à história de mulheres que denunciaram e seguiram suas vidas de forma saudável. Segundo a professora Nila Michele, as dificuldades derivadas do denunciar, reais, não se nega isso, são mais latentes entre as próprias mulheres violentadas, que os enredos em que mulheres que denunciam e apesar dos desafios, vencem.

Por Joaquim Cantanhêde

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Joaquim Cantanhêde
Joaquim Cantanhêdehttp://www.opedreirense.com.br
Jornalista formado pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
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