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domingo, abril 14, 2024

“A gente procura escrever porque as enciclopédias humanas estão morrendo”, Filemon Krause

Romancista com traço simbólico de Augusto dos Anjos, Filemon de Carvalho Krause Filho, 71 anos, poeta e um dos maiores escritores que versa Pedreiras, cidade no interior do Maranhão, caminha para a publicação de seu 50° livro. Ele, que ocupa parte do acervo histórico da cidade, encontrado na Biblioteca Municipal Antenor Amaral, ao lado de outros grandes escritores da terra, se debruça sobre sua trajetória com riqueza de detalhes, ressaltando o amor pela escrita literária, contando a princesa do Mearim e seus percausos, suas belezas, riquezas e sua arte. Contar Pedreiras e história de quem das águas do Mearim bebeu é o principal gênero literário de Filemon.

Dentre os muitos exemplares publicados por ele, está “João do Vale: o maranhense do século”, obra que ocupa um lugar preferencial em sua prateleira e vida, não por ser uma das mais vendidas, ou reconhecida, mas por despir de corpo e alma o talento e a humildade do saudoso João. Durante entrevista ao portal O Pedreirense, Filemon (d) escreve seu relacionamento com o maranhense do século, conta algumas curiosidades dos últimos dias de vida e “uma espécie de desprezo”, por parte dos pedreirenses, quando o assunto é o reconhecimento de João do Vale, em vida.

Para Filemon, escrever é deixar herança, lembranças, principalmente da nossa terra. É resguardar a cultura do nosso lugar e fazer “enciclopédias humanas”.

Ao findar da entrevista o escritor, quem tem a leitura e escrita como “forma de matar o tempo”, deixa uma mensagem de incentivo a todos os jovens que desejam iniciar no mundo literário. Acompanhe a partir de agora:

O Pedreirense: Quem é Filemon Krause?

Filemon Krause: Foi um menino que nasceu na Rua Abílio Monteiro, na época dos ‘piõezeiros’ do bairro do Engenho, onde hoje é a metalúrgica do Benedito Ancelmo. Com cinco anos de idade, meus pais foram morar na recém-emancipada cidade de Dom Pedro [Maranhão] e aos 18 anos eu regressei a Pedreiras, onde permaneço até hoje e ao que tudo indica o destino me deu como manjedoura e vai me dar como sepultura.

Filemon Krause e esposa (Foto: Joaquim Cantanhêde)

OP: Em que momento da sua vida você se reconheceu escritor e viu que queria trilhar por esse caminho?

FK: Aos 14 anos quando estudava o ginásio [ensino fundamental] em Dom Pedro, lá tinha uma meia dúzia de estudantes que eram interessados e nós criamos um jornalzinho do colégio e nesse jornal a gente transcrevia as poesias. Alguns começaram e pararam e eu fiz questão de todo mês fazer uma poesia, porque na época do colégio as poesias eram românticas e agora com o passar dos tempos a minha poesia ficou mais no estilo de Augusto dos Anjos.

OP: Você também fundou o jornal impresso “Correio de Mearim” em Pedreiras. Como foi esse período na comunicação?

FK: Assim como meia dúzia de intelectuais de Pedreiras, que por sinal, residente de Pedreiras só resta o Expedito Costa, fundamos também o jornalzinho Correio do Mearim e que, com a ajuda de Castelo Branco, que era um comerciante que tinha uma gráfica aqui em Pedreiras, nós permanecemos um ano, um ano e pouco no trajeto desse jornalzinho que era em circulação tanto aqui em Pedreiras como em Lago dos Rodrigues, que era a terra do dono da gráfica, e em Lago do Junco, mas que infelizmente, como em todos os jornais de Pedreiras tem um começo e uma vida muito curta. Hoje apesar de não ter mais aquela necessidade de jornal escrito, mas há muito tempo que Pedreiras não tem um jornalzinho da notícia ou do poeta transcrever as poesias.

OP: Sobre o que você mais gosta de escrever?

FK: Em primeiro lugar, sobre a história de Pedreiras. Muitas coisas você procura saber, mas não encontra em livros e o pessoal antigo, como era o meu caso de pesquisa, informações de pessoas eu conseguia com Carlito Cantanhêde, Diquinho Cantanhede, Dico Baima, dona Liede de seu Bornier que tinha uma memória fantástica. Sobre data, ela sabia praticamente 95% dos acontecimentos de Pedreiras. O Vicente Benigno foi um dos que muito colaborou principalmente para a publicação desse livro “Logradouros  de Pedreiras” que são as ruas com uma pequena biografia de todos os homenageados. Então esse pessoal todo já morreu e o que está restando no momento é o que eu escrevi. A gente procura escrever porque as enciclopédias humanas estão morrendo, aliás, aqui em Pedreiras, todos já morreram.

OP: Parte dos livros sobre Pedreiras que estão na biblioteca municipal Antenor Amaral foram escritos por você. Como você se sente em ocupar parte desse acervo?

FK: É uma satisfação muito grande para mim que, por incrível que pareça, esse livro “Enciclopédia Histórica do Centenário de Pedreiras” é o meu 48 livro e eu estou às vésperas de completar bodas de ouro da minha vida literária. Estou com o de sonetos: “seis sonetos para a princesa do Mearim”, que seria lançado no centenário do ano passado, mas que infelizmente não foi possível e estou fazendo “A vida e a obra de meu avô” Moisés Alves Feitosa, que por sinal tinha um engenho que era aqui, nesse local onde estou morando e esse livro sobre ele irá completar os 50 livros de publicação em vida e quero ver se faço uma boda de ouro pela primeira vez em Pedreiras. Então a satisfação é que nesse rojão nós temos Kleber Lago com vinte e tantas publicações, apesar de ser dez anos mais velho do que eu, nós temos o Oswaldo Rocha, que era irmão do Antenor Rocha que tem também vinte e tantos livros, nós tínhamos Ribamar Lopes, que já faleceu e tinha uma média de vinte livros também. Então a maioria, por falta de incentivo financeiro, é que são cinco livros, dois livros, três livros e alguns tem os livros engavetados na gaveta por falta de condições financeiras pra publicação;

Painel com obras de Filemon Krause em seu escritório (Foto: Joaquim Cantanhêde)

OP: Pedreiras é terra de muitos artistas, muitos escritores, poetas. Você se inspira em algum pedreirense quando escreve?

FK: Pra incentivar um pouco a minha segunda fase na poesia, eu comecei com Correa de Araújo, porque quando eu estava em Dom Pedro eu não sabia nada sobre a vida de Correa de Araújo, depois que foi que comecei a pesquisar. Então são essas coisas que chamam a atenção do poeta pra escrever. Você sabe que, você vendo, geralmente é muito difícil uma pessoa que lida com a literatura, pra ele não ter aquela curiosidade de saber porque, aí eu lendo um livro da academia maranhense de letras que ele fez um livro, um resumo sobre as ruas de São Luís, lá nós tivemos o prazer de Mariano Lisboa, que é a denominação dessa rua alí, o segundo intendente de Pedreiras e era o político que mandava e desmandava em Pedreiras. Ele chegou a ser prefeito de São Luís e lá ele pegou o beco do portão, e botou o nome de Rua Oscar Galvão, em homenagem ao pedreirense, médico e primeiro deputado estadual de Pedreiras e que praticamente, em São Luís ele estava esquecido. Então procure logo se inteirar quem foi Correa de Araújo e isso aí vai despertando. Por isso que nós temos de homenagear os filhos da terra ou as pessoas que colaboraram com o desenvolvimento da cidade.

OP: Você foi o primeiro presidente da Academia Pedreirense de Letras. Como Ela foi fundada e como você se tornou o primeiro presidente?

FK: Porque eu passei mais ou menos uns dez anos catalogando e era do conhecimento de todos os intelectuais de Pedreiras o trabalho que eu vinha tendo para fazer a academia. Em uma noite nós fizemos tudo da criação da academia, que por sinal, foi no dia 30 de maio de 2006, quando estávamos fazendo aqui, doutor Josélio falecia em São Luís, coincidência né. Então já tinha tudo catalogado, preparei tudinho pra evitar esse negócio de reunião por cima de reunião. Aí nessa noite, já estava tudo preparado, hino, brasão, a bandeira e o estatuto, então como reconhecimento pelo meu trabalho decidiram que eu seria o presidente. Procuramos fazer o máximo, mas me lembro como se fosse hoje. Nós fizemos uma reunião da academia na associação comercial, aí veio de São Luís, Milson Coutinho, José Chagas, desembargadores do Piauí vieram, daqui de Pedreiras faltaram três. Na hora do coquetel José Chagas veio até mim e disse: ‘Filemon, estou muito decepcionado! Tem gente que imagina que ser acadêmico é brincar de academia’ ele citando que os de fora vieram e os acadêmicos de Pedreiras não compareceram e isso desestimula qualquer um, aí a pessoa tem que fazer cara feia e enfrentar, não é? E eu estou achando que vai ser preciso eu tomar a frente de novo, que é uma tristeza muito grande a academia de letras parada há mais de dois anos.

OP: Como você enxerga hoje o incentivo aos escritores e poetas pedreirenses?

FK: Eu acho que com a administração da prefeita Vanessa Maia isso vai mudar, porque nos outros é uma tristeza… eu acho que por causa da amizade particular e na época meu filho Filemon Neto era vereador, ainda consegui o patrocínio, inclusive desses dois [aponta para os livros sobre a mesa], que foram mais caros, com o [ex] prefeito Antônio França. Antes dele assumir, teve um aniversário aqui em casa e eu pedi para ele não deixar morrer a Antologia que todo ano no tempo do Lenoilson era feito, tinha mais uns cinco poetas aqui e eu chamei e ele prometeu, daí passou o primeiro ano, o segundo, terceiro e o quarto e nada de antologia.

OP: Como você lida com o texto nas telas ao invés do papel?

FK: Meu filho, Filemon Neto, chega aqui e me mostra um monte de livro que tem pra você ler e diz ‘pai isso ai de papel vai acabar’ e eu digo ‘mas os do Filemon não acaba não’. Primeiro que eu fico é triste, fui acompanhar minha esposa que ta fazendo tratamento e todo mundo no consultório [faz o gesto de pessoa mexendo no celular], você sabe o que foi que eu fiz pra matar o tempo? Levei um livro.

OP: Você recorda qual livro levou para ler?

FK: Era “Lembranças do engenho do meu avô materno”, foi um dos últimos que fiz em literatura de cordel. Foi esse que levei pra lá.

OP: Você escreveu o livro “João do Vale: o maranhense do século”. Como era sua relação com João do Vale?

FK: A minha relação com João do Vale não era aquele relacionamento do ciclo de amizade. A gente conversava geralmente onde tinha recepção, por sinal tenho até o último retrato dele, que ele tirou em uma homenagem aos artistas da terra, promovido pela AABB. Ele já tinha sofrido o primeiro derrame e estava lá, ele e o Zezinho, lá na mesa sentados os dois, as mesas todas lotadas e eles lá, sozinho, os dois e ele tomando um refrigerante, pois não podia mais tomar a pinga que ele amava. Quando eu entrei e olhei pra ver se via algum conhecido, vi eles dois lá e fui sentar na mesa deles. Pra você ver, uma espécie de desprezo, porque quem foi João do Vale, pra ficar sozinho conversando com o Zezinho, que era quem levava ele para os lugares, pois ele não podia mais andar sozinho. Deixamos registrado nosso encontro, ele colocou até o braço no meu ombro. Vinte oito dias depois foi que ele teve o último derrame e foi pra São Luís e não voltou mais [com vida].

OP: Porque você considera João do Vale o maranhense do século?

FK: Ah, seu eu tivesse o poder teria dado esse título pra ele muito antes de ter sido feita essa nomeação, porque o João do Vale, a inteligência dele, apesar de não saber escrever, a inteligência dele era fantástica demais. Os poemas dele, as músicas dele, o local, o conteúdo é de gente que tem miolo na cabeça. Muita gente diz: ‘ah mais os outros ajudaram’. João do Vale fazia ele sozinho, mas infelizmente ele não sabia passar para o papel, você pode ver que muitas das músicas dele era com garçom, de boate porque ele ficava lá até o último e ficava matutando aqui e quando terminava pedia para o garçom escrever e acrescentava o nome dele na composição. João do Vale não precisava da ajuda de ninguém para fazer poesia.

Última foto de João do Vale em vida foi tirada com Filemon Krause na AABB, em 1996 (Foto: Reprodução)

OP: Filemon, no decorrer da entrevista conta sobre os últimos dias de João…

FK: Não sei se você sabe, mas o peba na pimenta ( comida típica da região, cantada e apreciada por João do Vale) foi que matou ele. Ele não se cuidava, tinha o colesterol muito alto e ele morando numa casinha porta e janela lá no beco do Lessa, na Trizidela e a Isabel cuidava dele. Ele não perdia o trajeto do Diogo e um dia ele trouxe de lá um peba, ele chega oito horas da noite e pede pra Isabel preparar pra janta. Isabel não quis preparar, pois João não podia comer, então ele mesmo preparou e quando terminou era pra lá de meia noite. Quando ele dormiu que acordou, não tinha mais braço, não tinha mais perna. Morreu no peba da pimenta.

OP: Que futuro você vê para a nossa literatura local?

FK: Em primeiro lugar é ter o incentivo financeiro de nossos governantes. Eu acredito que a prefeita Vanessa Maia vai dar uma alavancada nesse setor. Nós temos muitos poetas aí, mas alguns têm até vergonha de dizer que não tem condições de publicar um livro e outros até tentam, mas quando vão na gráfica que dão o preço, desmoronam.

OP: Pra você,o que é escrever?

FK: Bem, no meu caso, como eu costumo dizer na roda de amigos, eu sou poeta nas horas de folga, então você pode imaginar, se eu sou um poeta nas horas de folga, estou aposentado e com a pandemia do coronavírus, você vê que o tempo aumentou bastante né, então esse tempo eu estou aproveitando pra fazer a atualização das minhas publicações e aumentar ainda mais as minhas pesquisas sobre a história de Pedreiras.

OP: Que mensagem de incentivo você deixa aos jovens que querem iniciar na vida literária?

FK: Você jovem, que está iniciando na vida literária, mesmo que você não sinta o interesse das pessoas que deveriam ajudar, mas faça sua pesquisa, faça a demonstração da sua boa vontade e que um dia ou mais cedo ou mais tarde você poderá ser um dos grandes escritores de Pedreiras, demonstrando pra todo mundo o que realmente você sente pela sua cidade.

Um ensaio de Filemon Krause (Foto: Joaquim Cantanhêde)
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Mayrla Frazão
Mayrla Frazãohttps://www.opedreirense.com.br
Jornalista - Centro Universitário de Ciências e Tecnologia do Maranhão (UniFacema)
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