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sexta-feira, maio 1, 2026

“Medo de morrer e deixar meus filhos”, diz Jacira após deixar Hospital Geral de Pedreiras com dor e parir em casa

Onze dias se passaram desde que Jacira da Silva Barbosa, de 30 anos, fez de sua cama, hospital, ao dar a luz ao seu terceiro filho, numa manhã de segunda-feira do dia 09 de agosto. O parto em casa não foi por opção. Gestante de 40 semanas e sentindo dores, deu entrada no Hospital Geral de Pedreiras, Maranhão, ainda na segunda. Após realizar o exame de toque, recebeu do médico, Adilson Silva David, a ordem de “volta para casa”, e assim cumpriu. Entre sangue, dores e o medo de deixar os filhos sozinhos no mundo, concebeu Julia Valentina, com a ajuda da sobrinha de 16 anos e de Suy Ellem [falaremos dela mais a frente], que protagonizaram naquela manhã a função de parteiras.

Natural de São Luís Gonzaga, no Maranhão, Jacira mudou-se para Pedreiras, aos seis anos de idade. Solteira e agora mãe de três filhos, sentiu as dificuldades da última gestação precocemente ao contrair anemia. Desempregada desde o inicio da pandemia, divide uma casa de poucos cômodos com o pai, dois irmãos, a sobrinha e os filhos, no bairro Goiabal. Enfrentando dificuldade financeira, utilizava o Instagram, para pedir doações para a filha, que logo viria ao mundo. Em uma dessas, conheceu a empresária Suy Ellen, que a ajudou e acompanhou, do hospital ao parto em casa.

As primeiras dores chegaram no domingo (08). Jacira relata o receio de ir ao hospital nesse dia. Pela experiência das outras duas gestações sabia que o médico a mandaria de volta para casa. Na segunda (09), perto das 09:30h da manhã, já não suportando a dor, entrou em contato com Suy Ellen, que a levou ao Hospital Geral de Pedreiras, onde, após aguardar cerca de 30 minutos, foi atendida pelo médico de plantão, Adilson Silva. O mesmo constatou dilatação de 1 cm na paciente, motivando a manda-la para casa, mesmo com dor, como ocorrera. Cerca de quatro horas depois, Jacira da à luz em casa.

Sentada na cama onde deu à luz há onze dias (Foto: Mayrla Frazão)

Nossa equipe foi até o Hospital Geral na quarta-feira (18), mas fomos informados, pela Diretora Administrativa do Hospital, Roberta Ramos, que o plantonista Adilson Silva trabalha somente nas terças e quintas-feiras. Assim, nesta quinta-feira (19), retornamos com o objetivo de encontrá-lo. Ao chegar, perguntei se o mesmo se encontrava e fui informada que ‘sim’, minutos após me apresentar como jornalista, fui informada que o médico tinha saído, embora estivesse de plantão. Tentamos conseguir o contato, mas não tivemos sucesso. Tentamos o direct de seu Instagram, mas até o fechamento desta reportagem, nenhum retorno.

Em conversa com um médico que atende na região do Médio Mearim, o mesmo não quis se identificar, questionamos o protocolo de receber gestantes com dores e voltá-las para casa. “Nunca se manda um paciente pra casa enquanto não se resolve o problema que o levou ao hospital. Como nesse caso, uma paciente com dor não deveria ter ido pra casa, independente de está grávida ou não, mas vale esclarecer que nas grandes capitais as gestantes não são internadas se a dilatação estiver abaixo de 4 cm (sem sofrimento fetal), procedimento que na minha opinião pessoal acho errado, mas não sei lhe dizer se esse protocolo é legal”, disse o obstetra.

Sobre ter a filha sem o amparo médico e tendo o direito à saúde negado, Jacira relata o sentimento do que era pra ser um dos dias mais felizes de sua vida se transformar em minutos de desespero. “Fiquei com medo! No momento eu só perguntava: ‘ela está chorando?’ E as meninas disseram que ela estava, mas no momento fiquei com medo de tanto eu morrer, como ela”.

Pés de quem acabara de vir ao mundo (Foto: Mayrla Frazão)

Suy Ellen, que presenciou o parto delicado e solicitou a ambulância para prestar socorro, relatou os momentos de desespero dentro do quarto de Jacira. “Eu tive muito medo dela morrer em minhas mãos. Quando a neném já estava nascendo eu não sabia se segurava a cabecinha ou se pedia pra ela botar mais força, porque não tenho conhecimento nessa área, então foi um desespero muito grande”, disse Ellen.

Temendo uma hemorragia e o cordão umbilical para ser cortado, Jacira, mais tímida que nunca e demonstrando um desgaste emocional preocupante, faz sua segunda ida ao Hospital Geral, perto das 2:00h da tarde. Acompanhada por Ellen, que sob muita revolta, questiona o médico se era correto mandar uma “mulher grávida, com dor” pra casa. Ela relata que, com a voz alterada, o médico responde: ‘sim, é correto sim. O que ela iria ficar fazendo lá’, relembrou.

“Primeiro ele gritou com as enfermeiras falando que ela não estava em trabalho de parto e que ele fez o procedimento correto. No meu momento de nervosismo peguei meu celular para gravar a ignorância dele, mas não expus o vídeo dele gritando, falando alto, com falta de educação. Porque eu penso que já que da primeira vez ele mandou ela pra casa, ele poderia ter nos recebido com um pouco mais de educação. Ter entendido o nosso nervosismo”, ressaltou Ellen.

No hospital nossa equipe foi informada de que Adilson Silva atua como obstetra. Mas o Portal do Conselho Regional de Medicina do Estado do Maranhão – CRMMA do médico não apresenta nenhuma especialidade registrada.

CRM de Adilson Silva, médico que atua como obstetra no Hospital Geral de Pedreiras

Esse não é só mais um caso isolado, após Suy Ellen, relatar nos stories do seu Instagram todo acontecido, outras mulheres entraram em contato e revelaram situações de descaso que enfrentaram ao darem à luz no Hospital Geral de Pedreiras, além de reclamarem da falta de humanização de Adilson Silva, para com as pacientes e funcionários do Hospital.

Do poder público, nenhum posicionamento. Entramos em contato com o Secretário de Saúde, Marcílio Ximenes, via WhatsApp, ele visualizou nossa mensagem, mas até o fechamento desta reportagem não tivemos nenhum retorno.

O caso de Jacira se encaixa no conceito de Violência Obstétrica, quando mulheres que procuram serviços na hora do parto sofrem abusos apresentados por violência física ou psicológica, tornando o que era pra ser o dia mais feliz de sua vida, em um momento traumático, como aconteceu com esta mãe, que só de relembrar, desaba em lágrimas.

Entramos em contato também com a prefeita de Pedreiras, Vanessa Maia, que vez ou outra utiliza seu Instagram para se posicionar contra violência a mulher. Mas no caso de Jacira, nem uma linha, nota ou vídeo se viu. Desamparada pelo sistema público de saúde, Jacira expressa o seu sentimento pela chefe do executivo, a quem depositou confiança na eleição municipal. “Raiva, eu votei nela. No começo eu conversava com ela, ela respondia minhas mensagens, só que de um tempo pra cá ela deixou de responder. Então eu sinto raiva dela, se ela chegar na minha porta eu acho que não recebo ela”, ressaltou Jacira, visivelmente abalada.

Esse texto é sobre vidas e sobre o exercício de uma profissão que deve acolher, auxiliar e salvá-las, quando possível.

Mãe e filha (Foto: Mayrla Frazão)

Nesta sexta-feira (20), após esta reportagem ir ao ar, a advogada Leila Brandão, representando o médico Adilson Silva entrou em contato conosco e apresentou o seguinte posicionamento sobre o caso:

“O posicionamento dele é: está sendo vítima de um crime de difamação e calúnia (exposição de fatos que denigrem a imagem+imputação de falso crime) por parte da Sra. Suy Ellen e já está tomando as medidas judiciais cabíveis a este fato. Em relação a Sra Jaciara, está respaldado pelos estudos clínicos e médicos tendo realizado o exame e constatado a não necessidade de acompanhamento hospitalar no momento tudo como comprovado no prontuário e disponível a qualquer perícia.”

Ao questionarmos sobre a atuação do médico na área de obstetrícia sem possuir especialização, a advogada responde:

” TODO MÉDICO está apto quando da sua formação para exercer QUALQUER área do ramo da medicina.
O que o médico não pode é se apresentar na sociedade/ se dizer especialista para o qual não tenha título de especialidade.
Assim pontua o CFM assim como a legislação profissional brasileira.
Achei que o jornal tivesse que se informar sobre o assunto para o qual irá discorrer da forma que o fez.”

E continuou:

“17 da Lei Nº 3.268/57 diz que: “O médico legalmente inscrito pode exercer sua profissão em qualquer dos seus ramos ou especialidades, assumindo, é claro, responsabilidade por seus atos”. Finalizou.

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Mayrla Frazão
Mayrla Frazãohttps://www.opedreirense.com.br
Jornalista - Centro Universitário de Ciências e Tecnologia do Maranhão (UniFacema)
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