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sexta-feira, maio 1, 2026

As guerras de Trump: bravatas, petróleo e poder no Oriente Médio

COLUNA DO BARRINHA


Neste breve texto de reflexão/opinião, é feita uma retomada de um outro texto publicado neste mesmo jornal em 30 de janeiro de 2025 — poucos dias após a posse de Donald Trump, ocorrida em 20 de janeiro daquele ano — intitulado “Doutrina Monroe e Destino Manifesto: os fundamentos para o expansionismo estadunidense”. Ao recuperar parte daquela reflexão, com algumas alterações, busca-se evidenciar que os princípios históricos que orientaram a projeção de poder dos Estados Unidos continuam oferecendo ameaças e riscos à ordem mundial, visto que, na condição de potência global, o país se utiliza de diferentes instrumentos — políticos, econômicos e militares — para assegurar e defender, a qualquer custo, seus interesses estratégicos. Avance na leitura para compreender esse mundo cada vez mais confuso, sobretudo o Oriente Médio, considerado um verdadeiro “barril de pólvora”.

Ao deslocarmos o olhar para o Oriente Médio — alvo atual dos EUA —, percebe-se que os conflitos ali estabelecidos não podem ser compreendidos apenas a partir de disputas territoriais ou antagonismos ideológicos. Trata-se de uma região cuja importância geopolítica está diretamente vinculada ao controle de recursos estratégicos, especialmente água e petróleo — este último mais frequentemente destacado no debate público. Cabe mencionar também o aspecto religioso. Todos esses elementos, em diferentes momentos históricos, desempenharam papel central na formação de alianças, no acirramento de tensões e na eclosão de conflitos armados. No caso específico da água e do petróleo, tais recursos deixam de ser apenas bens naturais e passam a configurar instrumentos de poder, capazes de orientar decisões militares, influenciar estratégias diplomáticas e sustentar projetos de hegemonia regional.

Vejamos o caso específico do Irã, país que ocupa posição estratégica entre o Golfo Pérsico, a Ásia Central e o Oriente Médio. Nesse país, o petróleo representa um dos pilares de sua capacidade econômica e política. A relevância energética iraniana, somada à sua posição estratégica na região, torna o país um ator central nas disputas envolvendo potências regionais e globais, especialmente os Estados Unidos e seus aliados. Essa posição torna-se ainda mais evidente quando se considera a proximidade do Estreito de Ormuz, corredor marítimo por onde transita cerca de 20% do transporte global da commodity. O controle ou bloqueio realizado pelo Irã afeta diretamente o abastecimento energético global.

Ao mesmo tempo, a crescente pressão sobre os recursos hídricos em diversas áreas do Oriente Médio adiciona uma camada a mais de complexidade aos conflitos, uma vez que o controle de bacias hidrográficas, reservatórios e sistemas de abastecimento pode se converter em mecanismo de pressão política e militar. Diante desse cenário, a intensificação das tensões envolvendo o Irã evidencia como a disputa por recursos estratégicos continua sendo um elemento estruturante da geopolítica regional, muito embora a justificativa da aliança EUA-Israel para o conflito seja a defesa da liberdade, o restabelecimento da democracia e o fim do suposto programa nuclear no país dos aiatolás — programa este já negado pela Diretora de Inteligência Nacional dos Estados Unidos.

A postura intervencionista dos EUA frente ao mundo acabou originando, segundo especialistas, diversas doutrinas, como, por exemplo, a Doutrina Monroe (1823), sob o lema “América para os americanos”. Ainda em meados do século XIX, o conceito de Destino Manifesto emergiu como a crença de que os Estados Unidos tinham a missão divina de expandir seu território e disseminar seus valores de liberdade e democracia por toda a América do Norte. Sem necessariamente defini-las, é importante destacar que muitas outras doutrinas fizeram parte da política externa estadunidense, notadamente o Big Stick (1901–1909), a Doutrina Truman (1947), a Doutrina Carter (1980) e a Doutrina Bush (2001).

No início de 2025, o mundo se deparou com uma nova doutrina, a Doutrina Trump, ou “trumpismo”. Essa doutrina apresenta semelhanças com as anteriores, mas também diferenças. Em comum, observa-se a ênfase no expansionismo e na afirmação da pretensa supremacia estadunidense, bastante presente nas campanhas de Trump para a presidência dos EUA (2016 e 2024), sintetizada na expressão “Make America Great Again (MAGA)”, ou “Torne a América Grande Novamente”. Em relação às diferenças, observa-se no trumpismo um certo nacionalismo unilateral (“America First”). Enquanto doutrinas anteriores se estruturavam segundo uma lógica de liderança global, no trumpismo nota-se maior ênfase na disputa econômica, comercial e tecnológica.

Passado pouco mais de um ano do segundo governo de Donald Trump, a avaliação de sua agenda revela um quadro marcado por controvérsias e ambiguidades. Embora se observem avanços em alguns pontos, os resultados concretos — especialmente nos campos econômico e diplomático — ainda estão aquém das expectativas anunciadas. Trata-se de um governo frequentemente caracterizado por bravatas e blefes, sustentado por narrativas de força no cenário internacional. O sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, por forças norte-americanas foi justificado por Washington sob a acusação de narcotráfico. Diversos analistas classificaram a ação como arbitrária à luz do direito internacional. Outro ponto nevrálgico refere-se à política migratória baseada no endurecimento da fiscalização e na ampliação das operações do U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE), frequentemente criticadas pelo caráter coercitivo.

No discurso de posse, Trump já indicava que seu governo seria permeado por bravatas, ameaças e recuos. O discurso se materializou, em parte, em ações controversas, como a ingerência no Panamá, ameaças envolvendo a Groenlândia, a tentativa de renomeação do Golfo do México e o anúncio da saída do Acordo de Paris e da Organização Mundial da Saúde.

O acordo de paz em Gaza — exaltado em seu discurso — acabou servindo, na prática, como justificativa para ampliação da ofensiva militar. O alvo foi o Irã. A expectativa de uma guerra rápida mostrou-se equivocada. Em vez disso, observa-se um conflito de duração incerta, no qual Teerã demonstra capacidade de resistência e influencia o ritmo do confronto.

A comunidade internacional tem demonstrado preocupação com essa postura intervencionista dos EUA. Embora não haja passividade, as respostas variam entre apelos à moderação e tentativas de contenção diplomática. Alguns países, contudo, já reagiram de forma mais incisiva em outras ações trumpistas e no atual conflito no Oriente Médio. A resposta do Brasil, por exemplo, às pressões norte-americanas mostrou-se pragmática e cautelosa, mesmo diante de retaliações ligadas às decisões judiciais sobre Jair Bolsonaro, condenado por liderar uma fracassada tentativa de golpe de estado. Tais medidas refletem um padrão da política imperialista norte-americana, mas encontram limites em um contexto internacional mais multipolar, marcado pelo enfraquecimento da Organização das Nações Unidas e pela redução do apoio de aliados tradicionais. Paralelamente, o agravamento das tensões no Oriente Médio, especialmente na escalada com o Irã, e seus impactos sobre o petróleo reacendem temores de uma crise energética global, associada às ações de Donald Trump e Benjamin Netanyahu.

Esse cenário articula-se, ainda, a contextos políticos internos fragilizados: nos Estados Unidos, Trump enfrenta baixa aprovação, perdas na suprema corte e pressões partidárias às vésperas das midterms de 2026; em Israel, Netanyahu lida com acusações judiciais e risco político. Nesse quadro, a escalada militar pode assumir caráter essencial, sendo mobilizada como estratégia de sobrevivência política.

Em síntese, o que se observa é que, longe de promover a paz e a estabilidade anunciadas em discursos oficiais, a atual política externa dos Estados Unidos tende a aprofundar tensões geopolíticas e ampliar riscos à ordem internacional. Nesse contexto, a condução política de Donald Trump tem sido objeto de críticas, como sugere o acrônimo “TACO” (“Trump Always Chickens Out”), popularizado por Robert Armstrong no Financial Times. Trump recuou, mas afirma ter vencido a guerra contra o Irã. Venceu sem ganhar. Por tudo isso, sustenta-se que ele não terminará seu mandato (grifo meu).

Por José Edson da Silva Barrinha, professor de Geografia do IFMA e doutorando em Políticas Públicas da UFPI.

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